04 agosto 2017

[Resenha] Estação Atocha - Por Ben Lerner



Título: Estação Atocha
Autor (a): Ben Lerner
Páginas: 224
Editora: Rádio Londres
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Sinopse: Adam Gordon é um jovem poeta americano que, graças a uma prestigiosa bolsa de estudos, muda-se para Madri, pelo período de um ano, com o objetivo oficial de completar um projeto de pesquisa. Adam é um jovem brilhante mas muito instável, narcisista e frequentemente tomado por um sentimento de alienação de si mesmo. Viciado em cafeína, usuário eventual de haxixe, comicamente inseguro com as mulheres e com forte tendência a se automedicar, Adam se vê mergulhado em uma busca constante por autenticidade, girando em torno dos limites da linguagem. Página após página, o protagonista alterna momentos hilários com ruminações existenciais, o que alimenta a sensação de distância entre seu universo interior e o mundo externo. Todo esse quadro reforça a suspeita de que suas relações afetivas, suas sensações, sua poesia e até mesmo sua personalidade sejam fraudulentas, uma grande mentira.

Adam Gordon é um americano estudando em Madri graças a uma bolsa de escrita criativa. Para completar com sucesso sua incursão, precisa realizar um projeto de pesquisa sobre poesia, e ele ama escrevê-la, mas se depender dele, o projeto dificilmente emplaca.

"Por muito tempo, eu convivera com a preocupação de ser incapaz de de passar por uma profunda experiência artística e me custava acreditar que alguém mais fosse, pelo menos entre os meus conhecidos. Nutria profundo ceticismo a respeito das pessoas que alegavam que um poema ou música tinham “mudado a vida delas”, especialmente porque, observando-as antes e depois dessa experiência, não conseguia detectar a menor mudança." Pag. 9

Madri, a bela capital da Espanha, o acolhe em seus deliciosamente quentes braços e o rapaz, viciado em haxixe e com grande tendência a se automedicar, tem de viver como pode em uma terra cujo idioma, o espanhol, ele mal domina. Com o passar do tempo, porém, vai conhecendo novas pessoas e se questiona sobre vários assuntos, desde a arte como tal até o quanto vale a pena manter uma situação em pé.

Embarque na Estação Atocha e viaje pelo estranho mundo mental de Adam Gordon.





Estação Atocha é outro livro da Rádio Londres sobre o qual é difícil falar e mais complicado ainda achar um gênero onde encaixar. Posso começar admirando a pequena e adorável edição feita pela editora. A capa é bem bonita apesar de meio nada a ver com a história, ou talvez esse seja o propósito, considerando como o livro anda. A revisão está impecável e a fonte é muito boa para leitura. Além de algumas fotos de obras e pessoas reais que aumentam a realidade narrativa da obra.


Mas nem isso impede o ritmo do livro de ser às vezes um pouco tenso, considerando a narração feita em “fluxo de consciência” e os parágrafos graúdos. Em cinco capítulos bem grandes, temos o ponto de vista do americano Adam, ou Adán, como os amigos espanhóis o chamam. O rapaz, na casa dos vinte e muitos anos, está morando na Espanha com o intuito de completar um projeto de pesquisa. Porém, ele é bastante displicente quanto ao trabalho. Prefere passar seus dias lendo, fumando haxixe, tomando tranquilizantes, visitando museus ou tentando fazer amigos em uma terra que desconhece quase totalmente, tanto cultura quanto idioma, o qual ainda não domina embora forme frases para pelo menos uma conversa básica.

Nesse ínterim, conhece Isabel, que viria a ser sua namorada e os irmãos Teresa e Arturo. Ela, uma jovem rica e relativamente famosa no mundo literário, ele, um rapaz gay que de cara faz amizade com Adam.


Esses três personagens vêm a ser muito importantes na progressão da trama, onde o nosso poeta americano vai tentando tocar a vida enquanto está na Espanha e aí que comento, sem entrar no terreno dos spoilers, pelo menos dois assuntos principais que o autor discute enquanto a história progride...

O significado da arte nos dias de hoje No primeiro dos cinco capítulos da história, o narrador comenta que nunca foi capaz de sentir uma real experiência artística e diz não entender como alguém diz que sua vida mudou após ver um poema ou música. Considerando a minha mais recente experiência com a biografia do Mauricio de Sousa, discordo muito do personagem. Se vocês leram meu post anterior onde selecionei várias quotes da mesma, devem se lembrar de uma delas: onde o Mauricio, muito sabiamente, diz que podemos ver uma tempestade estando calmos, preocupados ou desesperados que ela vai continuar forte do mesmo jeito.

"À exceção dos diálogos mais elementares, me passa isso ou me passa aquilo, que horas são e assim por diante, nossas conversas em grande parte se resumiam a gestos meus na direção de algo que eu não conseguia expressar, para depois tentar descobrir o que ela havia adivinhado e, sempre por meio de gestos, responder." Pag. 56

Dizendo um pouco mais, posso garantir a vocês uma coisa: pode ser que alguma coisa, seja o que ela for, não mude a sua vida, mas muda a do outro. Por menos propósito que alguma coisa pareça ter para você, pode significar tudo para o outro. Portanto, gente, antes de desmerecerem o gosto do outro, pensem em como o outro se sente. Discorde sim, mas seja respeitoso, não faça pouco da outra pessoa. Adam até é respeitoso embora ele às vezes pise na bola, o que é bem normal considerando que ele é, sendo um ser humano, cheio de falhas e com tendências a errar demais.

Até que ponto fingimos quem somos e o quanto o outro nota suas mentiras? Desde o começo da história, Adam sente uma necessidade frenética de se enturmar, mas ao mesmo tempo ele parece odiar isso embora ele seja bem narcisista e às vezes se ache demais. Aqui, eu entro numa outra situação sobre a qual o autor nos faz refletir: até que ponto conseguimos ser realmente nós mesmos? Em um mundo cuja sociedade é cheia de padrões e com forte má vontade por aquilo que é diferente, é uma tarefa difícil, mas, é assim, pelo menos penso eu, que iremos encontrar nossa felicidade. Porque ser feliz não é simplesmente não ter problemas, é ser capaz de viver sem depender da opinião alheia, fazendo aquilo que realmente se gosta e estando com quem realmente amamos. No livro tem pelo menos alguns muitos exemplos de como se finge para parecer “cool” e de gente que simplesmente quer ver o circo pegando fogo.

"Pousei o livro e comecei a pensar nessa estranha experiência que é a leitura, no senso de harmonia entre os ritmos de uma reprodução do real e o real, na sua identidade estrutural, de modo que o sujeito de uma frase era exatamente o tempo da sua progressão – era justamente isso que eu respeitava em um dos pouquíssimos que chamava, se nenhuma ironia, de “grande poeta”: John Ashbery." Pag. 108

No livro, Adam faz amigos e genuinamente quer se enturmar com estes. Porém, ele inventa uma mentira muito cabeluda para “comover” as pessoas à sua volta e despertar algo verdadeiro nelas com relação a ele. Aí é que o autor entra na seguinte questão: estamos perdendo a capacidade de sentir empatia pelo próximo? Porque quando a história é descoberta, as pessoas não parecem dar a devida importância. Ou porque entendem a angústia dele ou não estão nem aí. Adam tenta deixar clara a situação, mas a verdade é apenas uma: nesse ponto ele não é um narrador totalmente confiável embora seja muito fácil se identificar com a situação. Afinal, qual de nós nunca tentou fazer “jogo de adivinhação” quando se tratou do que as pessoas à nossa volta realmente estão pensando ou sentindo?


O título da obra, por sua vez, referencia uma estação que realmente existe em Madri e onde ocorreu um atentado terrorista em 2012. Que é o ponto de partida para o final da narrativa, mas, o que acontece a partir disso e desde que parte, não posso contar porque é spoiler. Garanto, entretanto, que a leitura valerá a pena se você tiver paciência e estiver disposto a refletir. Razão pela qual dei cinco estrelas.

"“Você votou?”, perguntei.
“Eu não voto”, respondeu.
“Por quê?”, indaguei.
“Não acredito em votar”, afirmou.
“Por quê?”, insisti.
“Eu me recuso a fazer parte de um sistema corrupto”, disse ele. Pronunciou essa frase como se a tivesse repetido não sei quantas vezes naquele mesmo dia." Pag. 166

Assim como o outro livro da Rádio Londres que li, Viva a música!, recomendo para quem estiver disposto a sair da zona de conforto e ler algo bem diferente do habitual.





17 comentários:

  1. Olá, Renata! Tudo bem?

    Quando a Saga Literária foi selecionada para ser parceira da Rádio Londres ficamos super felizes, ao analisar o catálogo da editora, Estação Atocha foi um dos livros que chamou atenção e certamente vamos realizar essa leitura. Acho a edição bem legal. Ficou claro que você gostou da leitura e achei super legal que o livro te tirou da zona de conforto!
    Abraços!

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  2. Ola
    Primeira resenha que leio a respeito desse livro, mas não sei se no momento essa obra chama a minha atenção. Gostei muito de conferir sua resenha, em especial por conta de alguns detalhes que me deixaram curiosa quanto ao desenvolvimento trabalhado nas cenas. De qualquer maneira, se for pra sair da zona de conforto, acho mesmo que essa é uma ótima indicação sim!
    Beijos, F

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  3. A sua resenha realmente desperta a curiosidade por esse livro, principalmente por ele despertar tantas reflexões. A capa de longe não me chamaria a atenção para comprá-lo. Algo que talvez me incomodaria é o fato de ter capítulos longos demais. Mas por hora passo a indicação, pois já estou cheio de livros aqui pra comprar.

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  4. O último quote que você compartilhou me representa integramente. Não acredito no voto. mas sobre o livro, não sei se seria uma boa indicação para mim, mas quero tentar.
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

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    1. Pior que somos duas nesse ponto, viu? Acreditar em voto ficou literalmente "missão impossível" nos últimos anos. Quando vi essa quote, pensei: Jesus, isso é totalmente a minha cara e a de muita gente que conheço!
      Abraços e beijos da Lady Trotsky...
      http://rillismo.blogspot.com

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  5. Oie, tudo bem? Não conhecia esse livro, e ele não despertou muito meu interesse até a sua último Quote, adorei essa parte, e já quero ler para ver onde isso se encaixa, quero refletir com o livro também!


    Beijos.

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  6. Bem interessante esse livro, não fazia a mínima ideia que ele existia. A capa também achei bonita. E quanto à diagramação gostei de saber que a fonte é em um tamanho bom para se ler. Eu e letras miúdas não nos damos bem. Bexitus, Tay!

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  7. Oi Renata.
    Gostei muito das reflexões propostas no livro e de sair da zona de conforto.
    Mas parece ser exatamente aquele tipo de livro que eu teria que estar "no clima" para ler. Até porque minha zona de conforto no momento são romances bem leves e despretensiosos... rs.
    Beijos.

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  8. Oi Renata,
    Essa editora lança muitos livros que tiram o leitor da zona de conforto, não é? Gostei muito da premissa desse livro, principalmente, porque parece o leitor pensar o que mudamos dentro de nós para nos encaixarmos no que a sociedade e os outros esperam. Quero entender como as coisas funcionam nesse livro e vou super anotar a dica.
    Beijos

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  9. Oie tudo bem?

    Achei a capa dessa obra muito bonita, mas infelizmente a história não desperta meu interesse! Faltou alguma coisa nela em si que despertasse minja curiosidade, mas noto pela sua resenha que você gostou da leitura, então deixarei o nome anotado para quem sabe um dia realizar a leitura dele!

    Bjss

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  10. Não conhecia a obra, que capa legal! A sinopse tamém é bem atrativa.

    Muito boas as reflexões a respeito do quão autêntico somos. Do quanto de nós mesmos, nós somos de verdade. A história pelo jeito traz muitas reflexões interessantes, não esperaria menos de uma publicação dessa editora. Gotei muito da resenha, espero ter um dia a chance de ler o livro!

    Abraços!
    www.asmeninasqueleemlivros.com

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  11. Olá!!
    Gostei bastante da premissa do livro e fiquei bem curiosa quanto ao que o protagonista inventou para chamar a atenção dos amigos.
    Além disso, achei importantíssimo o autor trabalhar a questão da empatia, que está em falta nos dias de hoje.
    Ótima resenha!
    Um beijo

    www.asmeninasqueleemlivros.com

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  12. Oi,
    nunca li nada dessa editora, na verdade sequer sabia de sua existência e fico feliz de tê-la conhecido aqui. Quanto ao livro é nítido que ele trás a tona uma série de reflexões importantes e embora eu esteja bem interessada em ler obras que me tirem da zona de conforto ando meio sem tempo para arriscar, estou com uma pilha de leitura para colocar em dias, mas já anotei o nome desse livro e assim que tiver uma oportunidade darei uma chance.

    Beijos!

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  13. Olá!
    Gente, já me encantei pelo livro desde a sinopse, mas concordo com você de que a capa é meio nada haver com a história. Enfim, adorei a ideia do livro em si e definitivamente irei pesquisar mais sobre ❤️
    Um beijo

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  14. Olá Renata,

    Eu amo as edições da Radio Londres, todas me fazem babar, a única coisa que me deixa meio encucada com esse livro é que sempre tive muuuuuita dificuldade em ler livros em fluxo de consciência, eles sempre são muito lentos e tenho dificuldades em me envolver na história.

    Beijos e obrigada pela resenha
    http://floraliteraria.blogspot.com.br/

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  15. Olá, Renata

    Nunca li nada da editora e confesso que quase não vejo resenhas dos livros dela por aí.
    O enredo como um todo não chamou minha atenção e por isso eu não leria, mas sua consideração sobre a gente ter cuidado antes de desmerecer uma coisa é bem pertinente. Sempre falo isso. Às vezes a gente acha algo sem importância, bobo até, mas aquilo pode significar muito para alguém mesmo. É bom sermos atentos a isto.

    Beijos

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  16. Oi!
    Já vi essa editora nas redes sociais, mas infelizmente ela não faz muito meu estilo.
    Mas ainda assim achei sua resenha sobre esse livro muito boa, e o livro em questão também, principalmente quanto aos temas que ele trata sobre a arte e sobre mentirmos sobre nós, acredito que no fundo deva ser uma leitura cheia de reflexão

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