18 julho 2017

[Fale♥] Romantização do abuso na literatura



Antes que comecem a me linchar, tenho dois esclarecimentos a fazer:

 1. Eu sei que deve existir liberdade criativa, não estou querendo que os autores sejam censurados e nem acho que os elementos que vou destacar abaixo devem deixar de existir na literatura. Mas considero a discussão extremamente necessária, especialmente para as jovens leitoras, afinal, pode ser perigoso confundir ficção com realidade.

2. Vou usar o livro 50 Tons de Cinza como exemplo porque é um livro que a maioria das pessoas conhece. E não, eu não considero abuso o que eles fazem entre quatro paredes. De novo, porque isso vai dar confusão: Eu não considero abuso o que eles fazem entre quatro paredes. De novo? Eu não considero abuso o que eles fazem entre quatro paredes.

Só para deixar claro, caso ainda não esteja, não vou discutir sobre sadomasoquismo (não sei se esse é o termo adequado) e dominação, simplesmente porque não conheço sobre o assunto e tenho preguiça de pesquisar (risos). Acho que as pessoas podem fazer o que quiserem entre quatro paredes desde que seja consensual e todos os envolvidos tenham idade para consentir. Vou falar sobre outros elementos do livro, então bora lá:


Imagem retirada do google

1. Isolamento social: No livro 50 Tons de Cinza o Christian não tem amigos porque tem um passado difícil e muitos traumas e blá blá blá. O problema é que ele não entende e não aceita que a Ana tenha amigos: tem ciúme quando ela sai com eles e quer controlar até o que ela pode falar com os amigos. No livro isso vai mudando com o passar do tempo e o próprio Christian torna-se um ser mais sociável.

Agora, na vida real esse isolamento é muito triste. Eu já passei por isso e posso dizer que começa sem percebermos. Você sai com seu namorado e um grupo de amigos, depois seu namorado começa a ridicularizar seus amigos: que são infantis, não sabem conversar, que são todos filhinhos de papai que não sabem como é viver no mundo real... E por aí vai. Depois disso você começa a evitar sair com seus amigos e seu namorado ao mesmo tempo, mas sabemos que isso é difícil, ainda mais quando somos novas e precisamos de autorização dos nossos pais para sair. E, no começo, é tudo muito romântico e não queremos desgrudar daquela pessoa por quem estamos apaixonadas. E, quando nos damos conta, os amigos ficaram chateados com a situação e também começam a se afastar.

Situação comum, não? E posso dizer que não é nada saudável, nem para o relacionamento, nem para nossa autoestima, quando uma única pessoa é o centro do nosso mundo. Por pior que esteja, fica muito difícil sair de um relacionamento quando nos encontramos nessa situação. Então, tome cuidado, mesmo que aquela pessoa pareça ser o grande amor da sua vida, não deixe de conviver com outras pessoas. Não deixe de lado outros aspectos da sua vida. Por mais que seu namorado seja também seu melhor amigo, é muito importante termos uma vida fora do relacionamento.



Imagem retirada do google

2. O amor muda as pessoas: é uma ideia linda e romântica e, sim, pode dar certo. Mas é raro e tem um preço, sempre tem um preço. E devo confessar que é o aspecto que mais me preocupa quando se trata da vida real, porque vejo muito isso na minha profissão (sou advogada).

O que acontece no livro? O cara é sádico, gosta de espancar mulheres que lembram fisicamente sua mãe, porque quando era criança via o cafetão fazendo isso com ela (sua mãe). Ele fez tratamento durante anos, com os melhores profissionais, mas encontrou sua cura somente no amor que Ana sentia por ele. Lindo e romântico, não? Mas não saia procurando caras problemáticos na vida real achando que os fará mudar com o poder do seu amor. Achou isso absurdo? Acha que não existe? Só dê uma pesquisada no número que propostas de casamento que o maníaco do parque recebeu enquanto estava preso.


Imagem retirada do google

3. Ciúme obsessivo e mania de controle: no livro, o Cristian quer controlar as roupas, os horários, os locais frequentados e até mesmo o ambiente de trabalho da Ana. Lógico, no livro é tudo romantizado e em prol da proteção da Ana. E na maioria das vezes os receios do Christian se mostram fundados.

Tem uma cena que me marcou bastante em relação a isso. A Ana decidiu fazer um topless na praia e o Christian ficou puto tanto por ciúme quanto porque a imprensa poderia registrar a cena. Depois disso, durante uma sessão de sexo, ele deixou marcas/hematomas em todo o corpo da Ana para que ela não pudesse mais usar biquíni nem roupas curtas pelo resto da viagem.

Agora falando da vida real. Ter ciúme é normal, até certo ponto e desde que não saia do controle. Através da vivência na minha profissão, posso dizer que a maior parte das agressões físicas acontece por conta de ciúme. Tudo começa com agressão verbal e pode atingir níveis mais graves, sendo que na maioria das vezes os atritos são gerados por situações normais do cotidiano.

Sem contar que esse tipo de controle não faz bem para nenhum dos envolvidos no relacionamento. Imaginem ficar cada minuto no dia imaginando que está sendo enganado pela pessoa, ficar checando cada rede social o tempo todo, ficar preocupado com cada um que a pessoa conhece. E do outro lado a pessoa fica preocupada com quem, o que e quando fala, com medo de gerar ciúme, com medo do que faz ou escreve nas redes sociais...

Cada um faz o que quiser da vida, e sei que muitas pessoas vivem relacionamentos assim e são felizes. O problema é que muitas vezes a pessoa não percebe o que está acontecendo, e, quando se dá conta, já está vivendo sob o controle absoluto do(a) parceiro(a). E sair de uma situação dessas ou resolver as coisas pacificamente com o(a) parceiro(a) não é a coisa mais fácil do mundo.


Imagem retirada do google

4. Todas as atitudes são justificadas por conta de um passado difícil: Christian é grosso e arrogante com todo mundo. Toma as atitudes mais grotescas e tudo é justificado porque ele teve um passado difícil. Só mesmo na ficção para os empregados gostarem, terem carinho e preocupação por um chefe desses.

Agora, eu conheço pessoas que passaram por situações muito piores do que as vividas pelo Christian e mesmo assim são cordiais e educadas. Tratam seus traumas em um consultório e não descontando nas pessoas a sua volta, que não têm culpa de nada e, na maioria das vezes, não sabem o motivo por trás das atitudes dele.

Por experiência própria, posso dizer que deixar a pessoa fazer o que quiser, às vezes até pisar em você, através da justificativa de que "tem um passado difícil" é extremamente nocivo tanto para o relacionamento quanto para o próprio tratamento da pessoa que carrega o trauma.

Imagem retirada do google

Quem leu o texto inteiro percebeu que eu fiz um comparativo entre ficção e realidade. Já me adiantando às criticas que vou receber: não, eu não acho que quem lê um livro do gênero fantasia vai querer tornar-se vampiro ou comprar uma espada para sair matando todo mundo em nome da honra. Só que esses livros falam sobre relacionamentos e estão muito próximos da vida real, e acho que é um tema que merece ser discutido. Eu também não acho que sou a pessoa mais indicada para dar conselhos amorosos e nem é isso que pretendo fazer aqui, mas considero de suma importância as pessoas saberem reconhecer um relacionamento abusivo antes de tornar-se impossível sair dele.

Concorda com o que eu escrevi? Beleza. Não concorda? Deixe seu comentário explanando seu ponto de vista. Porque, em minha opinião, o importante é haver a discussão, sem grosserias e sem ofensas pessoais. Afinal, ninguém é perfeito e totalmente despido de preconceitos, e, todos temos direito a mudar de opinião. Até logo menos.

4 comentários:

  1. Incrível como conseguiu captar a essência do que se precisa discutir! É triste que você precise bater na tecla várias vezes de que não é algum tipo de preconceito com a leitura de livros do genero de 50 tons, e sim que a questão do abuso, retratada em diversos livros e que por vezes, nós leitoras e leitores, não percebemos por estarmos envoltos nessa aura de romance e ficção que permeiam a história. É preciso que se fale sobre o abuso, como é preciso que se tenha debates sobre qualquer outro assunto. Nós só evoluimos intelectualmente através disso; conversando e dialogando com respeito, refutando opiniões e pontos de vista contrários, sem nos deixar cegar por nós mesmos.
    Todo tipo de diálogo é válido.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi.
      Exatamente.
      Eu inclusive não queria usar um livro como exemplo, justamente para não gerar mal entendidos, mas não consegui escrever tudo da forma que eu gostaria assim e algumas coisas ficariam implícitas, o que poderia gerar ainda mais problemas.
      A minha intenção era abrir o diálogo e debater de forma objetiva com quem tem opinião contrária, mas aprendi a duras penas que a maior parte das pessoas não sabe argumentar de forma objetiva.
      Muito obrigada pelo comentário.
      Beijos.

      Excluir
  2. Olá
    Eu concordo contigo. Sou super a favor da liberdade de expressão e a literatura deve ser livre. O problema começa mesmo quando as pessoas misturam ficção com realidade. Eu sou suspeita pra falar porque detestei o livro de todas as formas possíveis, mas acho que a autora forçou muito um romance entre um abusador e uma menina pobre que quase sempre se sentia rejeitada.

    Vidas em Preto e Branco

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi.
      Eu quis abrir o debate porque já passei por um relacionamento abusivo e sei o quanto é difícil reconhecer isso enquanto estamos no relacionamento.
      Mesmo que a pessoa não concorde com o que escrevi, talvez veja um sinal de alerta acaso aconteça com ela.
      Obrigada pelo comentário.
      Beijos.

      Excluir