06 junho 2017

[Resenha] Viva a música! - Por Andrés Caicedo




Título: Viva a música!
Autor (a): Andrés Caicedo
Páginas: 224
Editora: Rádio Londres
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Sinopse: Viva a música! é a história da viagem iniciática da adolescente María del Carmen pela cidade de Cáli, uma Cáli apocalíptica, tropical e alucinada, fruto do prodigioso imaginário literário de Andrés Caicedo.
María é uma garota de classe média, é “loira, loiríssima”, orgulhosa da própria beleza e de seu cabelo comprido, possuída por uma energia vital inesgotável, determinada a não abrir mão da própria liberdade, apaixonada pela salsa, o rock, as baladas, por garotas e garotos, pelo álcool e as drogas.
A poderosa voz de María é o fio condutor do livro através de um monólogo excessivo, surtado, com letras de músicas misturadas com suas reflexões e contra reflexões, e acompanha o leitor em um verdadeiro tour de force, sem lhe dar tréguas até o final, em um crescendo cada vez mais autodestrutivo mas profundamente tocante. Há violência, há suicídios, mortes, gangues, baladas e mais baladas. No entanto, é uma voz sempre lírica, nunca vulgar, pela qual será impossível não se apaixonar.


María del Carmen Huerta é uma colombiana loira, loiríssima, segundo ela mesma, que vive na cidade de Cáli, nos agitados e estranhos anos setenta, em que a América Latina via-se mergulhada em ditaduras militares e forte influência norte-americana em todos os pontos, querendo a custo vencer a Guerra Fria que vinha desde 1945.

“Antecipe a morte, marque um encontro com ela. Ninguém quer saber de crianças envelhecidas.”

Bonita, estudada e de classe média, ela não se sente encaixada nesses termos e procura agarrar-se à sua liberdade através das pessoas, da música, de tango à rock passando pela loucura da salsa, da dança, do sexo e das drogas. Dona de uma inesgotável energia vital, ela busca viver o máximo possível e aproveitar tudo o que a vida tem a lhe oferecer.

“Se você deixar uma obra, morra tranquilo, confiando em uns poucos bons amigos.”

Essa é a história não apenas de María, mas de uma geração inteira de jovens. Alguns morreram pelo caminho, outros até aqui chegaram. Todos, porém, foram pela música tocados.






Foram três dias lendo esse livro e mais alguns deles tentando achar um jeito de falar de Viva a música!, do autor colombiano Andrés Caicedo, cujo falecimento precoce, aos 25 anos ao cometer suicídio por overdose de sedativos, completou quarenta anos em 04 de março.

Primeira coisa, tenho em mãos uma linda e caprichada edição feita pela Rádio Londres em 2015. A capa tem tudo a ver com o tema do livro, as folhas são amareladas e a fonte boa de ler, mas...
Nem isso consegue me fazer pensar em que gênero encaixar esse livro, do qual eu preciso realmente falar. Primeiro, é algo com o qual não estou acostumada e devo dizer, o primeiro livro vindo da Colômbia que leio nesses meus 29 anos mesmo conhecendo a maior parte da obra do Gabriel García Márquez através da internet e da faculdade.



Viva a música! é, em primeiro lugar, um longo monólogo, por isso, recomendo que quem for ler, seja paciente e pare, preferencialmente em algum ponto com pausa, pelo menos alguns minutos para respirar porque o ritmo da narração é frenético até o topo.

Apesar disso, porém, é um retrato fiel, sincero e real, até certo ponto um tanto trágico, de uma geração marcada pela angústia existencial, pela busca de uma razão para viver, porque só existir não basta, pela necessidade de buscar a própria identidade cultural, tão atrapalhada pela influência norte americana, e pelo ritmo louco da salsa e do rock, gêneros pelos quais a protagonista é apaixonada embora ela prefira as salsas dançantes e sensuais de Ritchie Ray e Bobby Cruz.



María del Carmen, a protagonista desse monólogo louco, reflexivo, contra reflexivo, musical, pirado, chapado e toda uma mistura de situações, é apaixonada não apenas pela música, mas pela ideia de viver sem se basear nas regras sociais tão chatas e enfadonhas que a classe onde ela nasceu espera que ela cumpra. Nada disso! Ela quer se livrar dessas amarras e se jogar com tudo no olho do furacão chamado “vida”, mesmo que isso custe a ela uma morte prematura por overdose. Ou suicídio. Quem sabe acidente. Talvez assassinato. Quiçá desapareça e nunca mais seja vista. Até mesmo possa morrer de complicações da AIDS, já que a personagem faz sexo com vários no decorrer do livro e não está nem aí para a opinião alheia ou as consequências desse estilo de vida. Algumas dessas coisas, devo dizer, acontecem com vários personagens no decorrer do livro, mas ela narra essas partes com seu jeito todo especial de ser e segue em frente, pois ela não quer chorar e se lamentar pelo que passou e sim viver o que ainda virá.

Todo o livro, pelo menos na minha opinião, especialmente depois que li sobre a biografia do Caicedo enquanto procedia na leitura, é um tratado sobre como ele pensava da vida e o modo como ele encarava a morte. Ele pensava que viver além dos 25 anos era uma insensatez e fez dessa primeira e única obra a prova máxima de sua existência, pois segundo a irmã, Rosario, atualmente com 66 anos (ou 67, não sei ao certo), ele sabia ter feito algo importante. E provavelmente queria que isso fosse único e especial, assim como a imagem jovem e sorridente dele, intacta mesmo após quatro décadas de falecimento. Embora o Brasil só tenha conhecido a obra dele há apenas dois anos.



O que é uma injustiça tremenda, pois muitos autores latinos hoje conhecidos, dois deles sendo Roberto Bolaño (não confundir com o mexicano criador do Chaves) e Alberto Fuguet, foram fortemente inspirados por essa obra tão única. Que foi o primeiro romance jovem e urbano da Colômbia pré-Pablo Escobar e seus cartéis de drogas, até então marcado pelas obras interioranas, mas não menos importantes, de autores como García Márquez.

Entretanto, o único real problema que encontrei no livro, embora no fim tenha gostado, foram as incontáveis referências musicais de que muita gente possivelmente nunca ouviu falar, eu inclusa na lista. Tanto que a única que reconheci de cara foram os Rolling Stones e só depois de dar uma olhada na lista de músicas ao final é que reconheci outra, José Alfredo Jiménez. Só para vocês terem uma ideia, a lista de canções que aparecem no livro ultrapassa as cem e ainda existem três cuja procedência é desconhecida. Pelo menos a editora fez um excelente trabalho em explicar, com notas de rodapé, conceitos musicais e culturais colombianos, e latino-americanos no geral, que muitos de nós desconhecem.

Ao fim dessas minhas palavras sobre essa obra tão única que particularmente foi uma das melhores leituras desse ano, posso dizer que fortemente recomendo, embora eu só o faça para quem estiver muito disposto a sair da zona de conforto e encarar uma leitura completamente diferente de tudo o que já se viu.

22 comentários:

  1. Olá
    Uma obra que já é marcada como uma das melhores leituras do ano chama a atenção! Eu nao conhecia esse titulo, mas fiquei bem interessada depois de ler seus comentários e a premissa parece ser ótima. Achei a capa bem bonita e fiquei bem curiosa quanto ao desenvolvimento, seja pela parte da ambientação quanto personagens, entre outras características. Espero poder ler em breve, e obrigada pela indicação!
    Beijos, Fer
    www.segredosemlivros.com

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  2. Eu não conhecia a obra, mas tenho a impressão de que não fará muito o meu gosto. Ainda assim, acredito que a personagem principal é bastante marcante, o que agrada muito o leitor. No momento, vou passar a indicação, mas pensarei melhor se devo ou não ler. Beijos!

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  3. Achei bem interessante a premissa de abordar sobre música, sexo e toda uma geração, confesso que me lembrou um pouco o filme do Cazuza. Talvez não seja a minha leitura no momento, pois estou querendo algo mais light e o livro tem um ritmo frenético, mas quem sabe mais para frente? A obra é muito interessante.

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  4. Oi
    Apesar da sua resenha apaixonada e da temática interessante do livro, não senti muita vontade de ler. Mas já aviso que é algo pessoal!
    Não estou num momento para leituras desse tipo, estou numa fase mais policial hahaha.
    Mas fiquei feliz por essa ter sido uma das suas melhores leituras do ano. Com certeza anotei a dica para um outro momento!
    Beijinhos
    Rizia Castro - Livroterapias

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  5. Oi,
    Eu fico feliz que o livro tenha mexido tanto contigo positivamente, apesar disso não cheguei a me interessar de fato pela premissa, não que não seja algo interessante apenas não faz meu gênero. Se tudo que foi dito apenas uma coisa em especial me faria dar uma olhada no livro é este é o fato de se tratar de um monólogo, nunca tive acesso a uma obra do tipo e gostaria de saber como é a experiência de se ler assim, apesar de já imaginar que não deve ser fácil.

    Beijos!

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  6. Olá, tudo bom?

    Não conhecia o livro, mas a premissa é muito interessante. Por ser algo mais denso, podemos dizer, no momento não leria porque estou em busca de livros mais leves. Vou guardar a dica, qualquer dia vou ler sim.

    Beijos:*

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  7. Oiiiii,

    Admito que sou uma das que não conhecia o autor é muito menos a obra, achei a premissa interessante e a capa linda de mais, queria saber o que se passa na cabeça de uma pessoa que acredita que viver além dos 25 é bobagem. Mas fiquei um pouco com o pé atras, por conta de ser um grande monólogo e principalmente por conta das diversas letras de musicas que deixam a gente perdida, eu não gosto muito quando o livro tem uma porção de referências assim, porque se eu não reconheço logo de cara eu fico parando a leitura pra pesquisar e tentar entender, aí acho que acabaria largando o livro pra lá por perder a paciência de ficar procurando as referências rs. Foi uma ótima dica pra que gosta deste estilo e não perde a paciência fácil rs.

    Beijinhos...
    http://www.paraisoliterario.com

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  8. Olá!

    Pela premissa, deu para perceber que este livro é bastante forte. E ao ler sua resenha, fui me interessando, mas pela história do autor. Do que pela história do livro. Foi um prazer ler sua resenha. E conhecer um pouco da breve história particular deste autor.

    Abraço

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  9. Oie, tudo bem?
    Eu não curto muito drama, e achei que a capa lembra aqueles livros de colorir (apaixonante). Porém, não sei se teria paciência pois não gosto muito de monólogos assim, tensos demais. Mas quem sabe um dia?

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  10. oi tudo bem
    A leitura parece mesmo bem complexa e exige um certo cuidado e maturidade...
    tenho medo de ler e ficar perdida na historia, mais mesmo assim me deu muita vontade ler quem sabe futuramente eu de uma oportunidade.

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  11. Oiee Renata ^^
    Livros com ritmos frenéticos não são muito "a minha praia", mas eu fiquei bastante curiosa para ler esse, principalmente, confesso, pela história do autor. Além disso, eu também me senti atraída pela premissa do livro, pois me pareceu bem diferente de tudo o que eu já li. Fiquei curiosa...haha'
    MilkMilks ♥

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  12. Oie!
    Confesso que o livro não me chamou a atenção. Achei muito interessante tudo o que apontou na sua resenha, mas não sei se vou gostar da narrativa ou das referencias musicais que vou ficar perdida.
    Mas mesmo assim, vou anotar essa indicação, pois nunca se sabe quando vai me surgir a curiosidade para conferir.
    Bjks!
    Histórias sem Fim

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  13. Olá!

    Conforme lia sua resenha, só conseguia pensar em algo que você disse no final, que é uma leitura para sairmos da zona de conforto... No geral, gosto bastante desse tipo de leitura, e achei a premissa muito interessante, a protagonista parece ter sido criada de uma forma tão livre de preconceitos, livre de amarras, livre daquela sensação de se importar com o que os outros vão pensar...
    Vou anotar a dica!
    Um beijo

    www.asmeninasqueleemlivros.com

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  14. Olá Renata,
    Ainda não conhecia esse livro nem o autor, mas achei a obra bastante única. Gostei muito da premissa desse livro e fiquei muito triste com o que aconteceu com o autor tão novo. Acho que muitos autores que nem imaginamos funcionam como inspiração para outros e isso deveria ser mais divulgado!
    Vou deixar, entretanto, a dica passar pois sinto que essa leitura não vai me agradar.
    Beijos

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  15. Ai, eu também sou loira loiríssima, de farmácia, mas sou! Hahahhaha
    Apesar da excelente resenha eu não leria o livro. A história em si até é interessante, mas suas características (monólogo + referências musicais demais) me incomodariam bastante.
    Que bom que você finalmente leu a obra de um colombiano... eu ate hoje não li.

    Beijos

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  16. Oi.

    Eu conheci essa editora depois que a mesma abriu inscrições para parceria, até então, não sabia da existência dela. Depois disso, fui procurar mais sobre os livros da editora, e vi que eles têm muitas coisas boa, que me interessaram muito. Vou adicionar este livro à lista de leituras e ficar de olho em mais títulos da editora.

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  17. oi, renata, adorei a resenha e só com ela você consegue nos convencer a dar uma chance para a obra. Achei bem interessante todas essas referências musicais e o fato de ter na obra muito do modo como o autor se sentia. Também acho ótimo quando somos apresentados a um lugar diferente do habitual em um livro.

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  18. Oi!
    Venho ansiando por uma leitura diferente assim, que me tire do mundo já conhecido. Por mais que você goste de um estilo de literatura, uma hora enjoa de ler tanta coisa parecida.
    Nunca li um livro com uma premissa parecida com essa e não me incomodo com leituras difíceis, então vou aceitar sua dica! Me parece fascinante que este autor tenha escrito uma coisa só e soube que isso conquistaria o mundo.
    Entrou na minha lista!

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  19. Oi!
    Apesar de achar bem interessante a proposta desse livro acho que não sou o público alvo dele, pois não conheço grandes nomes citados e também não sou muito ligada á musica assim e tenho certeza que o livro não me tocaria do mesmo jeito que um fã da música e toda sua história seria tocado.
    mas ainda assim sua resenha está ótima e muito clara ;)

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  20. Olá,

    Essa edição está muito bonita mesmo, mas isso já é o esperado da editora, que sempre capricha nessa questão. Ainda não conhecia essa obra, e era de esperar que um livro relacionado a música me atraísse, no entanto aconteceu o contrário, essa leitura requer uma certa atenção, e no momento estou a procura de livros mais leves, divertidos e dinâmicos.

    Beijos,
    entreoculoselivros.blogspot.com

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  21. Oi Renata, tudo bem?
    Menina que livro é esse? eu não conhecia ele e a sua resenha já me deixou mega curiosa, eu adoro esses livros que trazem um assunto mais série e pela sua opinião, também de livros frenéticos que deixa o leitor anestesiado. Fiquei muito curiosa mesmo e com toda certeza irei conferir logo a obra.

    Beijoa

    http://www.oteoremadaleitura.com/

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  22. Não conhecia esse livro e fiquei pensativa sobre o assunto. Querendo ou não, parece que retornamos a esse período de vazio existencial preocupante e é bacana saber que existe um livro que aborda o assunto. Definitivamente essa capa é maravilhosa.

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