30 março 2017

[Mês da Mulher] Resenha: Contos Sobre a Imortalidade - Por Mary Shelley


Sinopse: Victor é um cientista que dedica a juventude e a saúde para descobrir como reanimar tecidos mortos e gerar vida artificialmente. O resultado de sua experiência, um monstro que o próprio Frankenstein considera uma aberração, ganha consciência, vontade, desejo, medo. Criador e criatura se enfrentam: são opostos e, de certa forma, iguais. Humanos! Eis a força descomunal de um grande texto.
Quando foi a última vez que você teve a chance de entrar em contato com a narrativa original desse que é um dos romances mais influentes dos últimos dois séculos? Que tal agora, na tradução de Márcia Xavier de Brito? Além disso, esta edição conta com quatro contos sobre a Imortalidade, em que Shelley continua a explorar os perigos e percalços daqueles que se arriscam à tentação de criar vida: “Valério: O Romano Reanimado”; “Roger Dodsworth: O Inglês Reanimado”; “Transformação”; e “O Imortal Mortal”, histórias pesquisadas e traduzidas por Carlos Primati, estudioso do gênero.
Frankenstein, ou o Prometeu Moderno é um dos primeiros lançamentos da coleção Medo Clássico — ao lado do volume de contos do mestre Edgar Allan Poe — no início de 2017. A qualidade do livro é impecável, para cientista maluco nenhum colocar defeito. Capa dura, novas traduções, ilustrações feitas por Pedro Franz, artista visual e autor de quadrinhos reconhecido internacionalmente. O livro é impresso em duas cores: preto e sangue.


O que um romano dos tempos antes de Cristo, um inglês do século dezessete e um jovem discípulo do século quinze têm em comum? Todos eles estão neste mundo há mais tempo do que a natureza humana permitiria em termos temporais e todos eles se veem vivendo em um mundo totalmente distinto daquele que estavam acostumados. Dois deles acordaram em um mundo totalmente atualizado em comparação às suas épocas originais e um deles viu o mundo chegar até onde está agora.

E você, já ouviu falar da parábola cristã do filho pródigo? Bem, Mary Shelley contou uma outra versão da história. E o blog Rillismo vai te falar suas impressões sobre esses contos e considerações acerca de sua autora, que mesmo duzentos anos depois de Frankenstein, segue ainda sendo extremamente importante para a história do horror.






Oi gente linda, lá vem a Lady Trotsky continuando o post da semana passada, no qual eu falei do romance Frankenstein. Nessa continuação, tratarei dos quatro contos que vêm como extras na nada menos que MARAVILHOSA edição que a Darkside publicou. (Virei fã de carteirinha da Caveirinha depois dessa embora eu já a adorasse bem antes.) Confira aqui a resenha. E também tratarei alguns pontos da vida da Mary Shelley, com o intuito de mostrar a vocês a grande importância que ela teve para o que temos hoje, temos em termos de horror. E o quanto a vida pessoal dela influenciou a obra que ela viria a fazer depois do livro que a consagrou. Considerações minhas, ou seja, você tem todo o direito de discordar caso não ache a mesma coisa.


Certo, eu sei que misturar resenha e matéria parece algo extremamente inusitado. Até porque não acho que alguém tenha feito algo parecido antes, mas o fato é que três dos contos aqui abordam, assim como em Frankenstein, a imortalidade, tema pelo qual a autora tinha enorme fascínio. Além é claro, de exibir de um jeito bem sutil e alfinetado, uma crítica social bem séria. Mary nunca soube porque faleceu em 1851, mas revolucionou o mundo da Literatura não apenas na chamada “trama de vingança”, que abordei no meu texto anterior. Ok, lady, como assim? A imortalidade já existia no meio literário, nas poesias abordando o mito do vampiro, mas, antes dela, nenhum autor abordou o lado negativo da mesma. Vamos pensar na seguinte situação, colocada no conto Valério, o romano reanimado: e se você fosse a pessoa que despertasse mais de dois mil anos depois em uma Roma totalmente diferente da qual você estava acostumado? (A cargo de informação, a Itália tal como conhecemos hoje só viria a existir a partir de 1861.)


Nesse primeiro conto, o “romano reanimado” do título é possivelmente o que hoje muita gente nomearia de “um cara deprimido”. Pois ele não está nada habituado com as mudanças que aconteceram no mundo à volta dele desde ele ter vivido na Roma antiga, onde homens e mulheres usavam togas e coroas de louros e cultuavam deuses antigos.


Pense que é você mesmo e imagine ver-se em um mundo onde o cristianismo católico predomina e os homens usam ternos e cartolas e as mulheres vestidos longos e armados. Isso falando o mínimo básico da situação, que a gente pode aprofundar isso igual cratera de vulcão se der uma estudada em História. O que vocês pensariam disso? Achariam legal ou ficariam com cara de quem está perguntando “o que eu perdi?”? Pode-se dizer sinceramente que Valério definitivamente acha que os italianos nada são em comparação aos antigos romanos, mas aí estou entrando na questão dos pontos de vista. Não sei exatamente o que Mary pensou enquanto escrevia esse excerto longo (o texto não chegou a ser terminado), mas imagino que ela quis criar uma espécie de conflito entre o mundo “moderno” e a antiguidade do protagonista, mas como a história nem chega a ter mesmo um fim, fica difícil saber qual era a real intenção embora a execução tenha sido muito bem feita.


O mesmo podendo-se dizer de Roger Dodsworth: O Inglês Reanimado, já que esse conto tem, pelo menos na minha opinião sincera de leitora, a mesma intenção do anterior. Mas focando mais fortemente no que poderia estar sendo ao invés de dar fatos concretos, já que esse conto é baseado em uma série de conjecturas sobre como o agora bicentenário Roger estaria se saindo no mundo de 1826. Devo dizer, o conto foi baseado em uma reportagem sobre uma pessoa supostamente revivida após ser encontrada congelada, mas cuja veracidade foi logo desmentida. (Isso não os lembra daquelas falsas notícias que circulam nas redes sociais afora?) Essa história, em oposição à anterior, tem um final bem diferenciado, embora combinando perfeitamente com a proposta do conto, que em particular achei muito boa.


Apesar de que, dos três contos sobre imortalidade, o que mais gostei foi O Imortal Mortal, que tem uma excelente execução e mostra um lado realmente negativo de viver tempo demais. Aqui, o protagonista, Winzy, em razão de estar apaixonado por uma jovem chamada Bertha, mas ser pobre demais para realizar ou consumar o casamento, se torna discípulo do famoso Agrippa, alquimista, filósofo, ocultista e tudo o mais que a época permitia e não deixava. Mas as consequências dessa aliança podem ser, e são, difíceis, para o nosso desafortunado amigo de cachinhos chocolate, especialmente porque no início da história, o casal vive aos perrengues porque a outra vive esnobando o cara, o que muitos garotos babaquinhas de hoje chamariam de “botar na friendzone”. No entanto, com o passar da história, as coisas radicalmente vão mudando de figura...


Winzy torna-se um homem feliz e consideravelmente realizado, mas à medida que os anos passam, ele percebe que o tempo não passa para ele embora aconteça com outrem, coisa que o deixa em desespero, pois ele, não mais suportando os comentários alheios sobre sua juventude prolongada, acaba se mudando para paragens distantes. E a partir daí ele passa a narrar um tanto tristemente sua sina longa demais, torcendo para que um dia a morte o leve e ele finalmente possa se livrar do tormento. E aí algumas reflexões tornam-se possíveis, em especial nesse último: vale a pena viver tanto? O que fazemos com o tempo que nos é dado vale realmente a pena? Ou o gastamos com o intuito de agradar outros que não a nós mesmos?
Suponho eu, na minha muito singela opinião, que Mary Wollstonecraft Godwin, Shelley depois de casar-se com o poeta Percy Bysshe Shelley, provavelmente pensava mais nisso do que supúnhamos. Vamos considerar os seguintes pontos:
- Era filha de dois adeptos de ideias progressistas do século dezoito, a revolucionária feminista Mary Wollstonecraft e o anarcoutilitarista William Godwin. Em consequência, ela foi criada um lar muito diferente do costumeiro para a época, onde as mulheres tinham um papel imposto desde o nascimento: serem mães, esposas e donas de casa. Ou amantes, cortesãs ou prostitutas caso fossem azaradas por algum motivo.


- A menina Mary definitivamente encaixou-se na parte de amante, mas não por azar, e sim porque o bichinho do amor picou o jovem coração da então donzela. Que aos dezesseis anos fugiu de casa para viver um intenso e complicado amor com Percy, um poeta de então 22 anos, casado e pai de uma filha de dois anos cuja mãe esperava o segundo filho. Isso por si só pode-se considerar uma fuga do padrão das grandes. Embora a própria escritora fosse adepta do amor livre, mas por mais liberdade que a gente tenha, o amor é aquele bichinho que rói, rói, rói o coração da gente. E dói, dói, dói.
Coisa que nem mesmo o pai da escritora gostou, razão pela qual ele renegou a filha por um bom tempo. Eles vieram a se entender de novo, mas a relação nunca mais foi a mesma. Bem, não é como se as pessoas fossem perfeitas, não é mesmo? Nem isso, porém, impediu que Mary e Percy viessem a se casar logo depois que este ficou viúvo após a esposa se suicidar. Do casamento, vieram quatro filhos, mas apenas Percy Florence chegou vivo à idade adulta. Imaginem como foi para ela perder três crianças em um período tão curto de tempo e para piorar, ficar viúva aos 25 anos depois que o marido morre afogado em um naufrágio. Isso se você não conta a perda de uma meia-irmã, Fanny Imlay, que também se matou. E o trauma de conviver com o fato que a mãe morreu apenas dez dias depois dela nascer. Muito provavelmente esse acúmulo de tristezas a fez ter uma grande obsessão pelo tema da imortalidade. E a se perguntar o quanto valia gastar o tempo com coisas que não nos fazem felizes...


Bem, Mary Shelley, após a publicação de Frankenstein, publicou outro romance, O último homem, em 1826 e alguns contos, incluindo esses dos quais estou falando embora eu ainda não tenha comentado Transformação. Além de esforçar-se muito para tornar a obra poética do marido reconhecida no Reino Unido. Parece estranho que alguém como ela fizesse isso? Com certeza, mas, assim como ele reconheceu o talento dela, ela conhecia muito bem o dele e isso meio que se torna natural. E claro, apesar de tudo o que ela passou devido aos problemas familiares, conjugais e financeiros, Mary conseguiu viver do que gostava e diferente de outras mulheres da época, não temeu fazer as próprias escolhas. E apesar de ter vivido apenas 53 anos, foi o suficiente para que ela consolidasse algumas das bases do horror e terror atuais. Se temos de agradecer a Stevenson, Poe, Stoker, Lovecraft e outros, sejamos mais gratos ainda à Mary Shelley, que, de certa forma, inspirou os autores citados.


No entanto, tem um mistério que ainda não consegui desvendar totalmente entre os quatro contos que li, o conto Transformação. No prefácio que os antecede, Carlos Primati conta que ela se inspirou em um poema de Lord Byron, que por sua vez teria se inspirado em Lewis (não o Caroll do Alice, por favor), com seu The Three Brothers e Goethe, com seu Fausto. Entretanto, a leitura desse conto, que particularmente achei excelente, me fez lembrar muito fortemente da parábola bíblica do filho pródigo embora eu imagine que Mary Shelley sequer tenha considerado essa possibilidade. Mesmo a maneira como ele se desenvolve parece remeter à famosa história embora a parte final saia bastante disso. Mas aqui estou entrando na casa da interpretação e como tal, é algo que cabe ao meu pensamento, com o qual ninguém precisa concordar.


Por aqui eu encerro minhas considerações e finalizo recomendando mais uma vez a edição de Frankenstein criada pela Darkside.

14 comentários:

  1. O que é essa arte gráfica? Tudo bem que elogiar a arte gráfica da Darkside é a mesma coisa que dizer que a água molha, mas vamos combinar que este aqui, eles redefiniram o que é capricho?
    Amo esta história e com certeza vou comprar o livro, porque ele está perfeito!
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

    ResponderExcluir
  2. Olá!
    Não tive o prazer de ler nenhuma obra da Darkside, apesar dos inúmeros elogios que tenho lido. Nessa resenha/matéria fiquei impressionada com a história de vida da Mary Shelley. Acredito, assim como você, que ela tinha motivos para gostar do tema imortalidade. Suas considerações me deixaram bem curiosa para ler os contos descritos e a edição de Frankenstein.
    PS: nem consigo me imaginar despertando dois mil anos depois em um lugar totalmente diferente!!

    Beijo.

    ResponderExcluir
  3. Olá!
    Pode sair correndo e compra-lo imediatamente? Rsrsrs. Fiquei apaixonada com suas descrições dos contos e de todos o que mais me chamou atenção foi O Imortal Mortal, pois é muito verdade, qual seria a graça de viver eternamente? Ver todo o mundo passar e criar vínculos que você irá ter certeza que terá fim seria extremamente frustrante. Outra coisa que me arrebatou e que não seria de menos é a edição não menos que incrível da DarkSide, a parte de dentro toda rica em detalhes enche os olhos.
    Beijos,Lari.
    Segredosdeumacerejeira.blogspot.com

    ResponderExcluir
  4. Oiee Renata ^^
    Eu já tinha visto a capa deste livro antes, mas como não é bem o tipo que eu gosto de ler, nem dei muita bola. Gente, preciso falar dessa diagramação: que coisa mais PERFEITA! Ainda não acho que é o tipo de livro que eu quero (pelo menos não agora, e não num futuro próximo...haha'), mas eu preciso ter essa belezura na estante...haha'
    MilkMilks ♥

    ResponderExcluir
  5. Olá amore,
    Não curto muitooo o gênero não, mas já vi tantos comentários tão bons da DarkSide que estou até começando a me interessar pra alguns livros dessa editora.
    Esse ainda não conhecia, mas ao ler sua resenha fiquei um pouco curiosa pela leitura.
    Sua resenha e as fotos estão lindas parabéns, fizeram ficar ainda com mais vontade de ler.
    Beijokas!

    ResponderExcluir
  6. Olá Lady - acho que é assim que você gosta de ser chamada!
    Ainda não li esse livro, mas tenho muita vontade, pois acho a ideia do livro extraordinária e é um ponto mega positivo ela ter sido escrita por uma mulher.
    Adorei essa análise que você fez desses contos e fiquei curiosa para saber o que eu vou achar quando ler. Acho que essa autora revolucionou ao escrever essa obra e espero me sentir revolucionada também.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

    ResponderExcluir
  7. Oie...
    Gente do Céu! Que edição maravilhosa... Estou babando aqui hahaha...
    Achei tudo muito legal o livro e fico feliz que tenha gostado da história, porém, não me dou bem com esse gênero, então, acho melhor passar a dica.
    Beijos

    ResponderExcluir
  8. Olá,

    Lembro que a DarkSide tinha anunciado que o primeiro livro do selo Medo Clássico seria essa livrão, mas até hoje não tive a oportunidade de fazer a leitura, a sua resenha só me animou, pois fiquei bem dentro do assunto. A edição está maravilhosa e o livro já está adicionado à minha lista de desejados! ♥

    → desencaixados.com

    ResponderExcluir
  9. Olá, tudo bom?
    Primeiramente, essa edição é um espetáculo! Sou super curiosa para ler este livro, ainda mais depois da ultima versão do mesmo que vi no cinema. Sobre sua resenha, adorei saber sobre esses contos extras que tratam de imortalidade, com uma forte crítica social. Pelo que falou, acho que meu favorito também seria o Imortal mortal, por ter a crítica mais velada ao lado negativo de se viver tempo demais. Outro ponto que adorei no post foi saber um pouco mais sobre a autora.
    Adorei todo o post e espero poder ler o livro em breve!

    Beijos

    ResponderExcluir
  10. Oie
    ai que edição maravilhosa, meu deus sahushausha eu conheço bem pouco da história em si mas vou aproveitar pra saber mais quando tiver esse livro lindo, muito bom o pouco que li nesse post, ja quero para ontem

    beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  11. Olá!
    Esse livro está lindissimo!
    Não sou muito fã desse tipo de estória, mas depois que vi o seriado Penny dreadfull, comecei a gostar.
    Jurava que já tinha comentado nesse post, mas esse é a segunda parte. =p
    Não sabia que havia contos nessa edição. Jurava que eram só o enredo sobre a vida do Victor. Mas mesmo assim,, ainda estou curiosa para conhecer. Espero que em breve.

    ResponderExcluir
  12. Olá tudo bem?
    As edições da DarkSide Arrasam mesmo e essa não poderia ser diferente!
    Fico feliz em saber que você gostou muito da obra mas eu não sou muito fã de livros do gênero e então vou deixar a dica passar.

    beijinhos!

    ResponderExcluir
  13. Olá!
    Nunca li o Frankenstein, mas claro que conheço a história!! Hehe
    Achei interessante a premissa desses contos da autora, pois parece que a imortalidade era um tema recorrente em sua vida. Ao colocar um pouquinho de sua história na resenha, vc nos ajuda a compreender que provavelmente foi a forma que ela encontrou de lidar com tantas perdas em sua vida né?
    Amo as edições da Darkside, e como sempre, essa também está maravilhosa!
    Um beijoo

    www.asmeninasqueleemlivros.com

    ResponderExcluir
  14. Oláa!
    Será que vai chegar o dia em que a gente não faça questão de elogiar a qualidade das edições da Dark? Acho que não hahaha tive a chance de ver o livro na livraria e é realmente incrível! (amei as fotos). Amei muito como você abordou os contos, o livro já estava na minha lista de compras, mas agora ele entrou na prioridade hahaha muito massa o post, sério!
    Beijos,

    Luana

    ResponderExcluir