08 março 2017

[Mês da Mulher] Claquete - Esposamante (1977)


Sinopse: Produtor de vinhos anarquista é dado como morto, deixando a mulher livre para assumir os negócios e a sua própria personalidade. A transformação intelectual e sexual dessa belíssima mulher, no entanto, ainda é alvo de atenção do marido desaparecido.

Título: Esposamante
Título Original: Mogliamante
Lançamento: 27 de outubro de1977
Duração: 1h41min
Diretor(a): Marco Vicario
Gênero: Drama / Comédia dramática

Antonia Martinelli (De Angelis) e Luigi De Angelis são casados, mas não poderiam ser mais diferentes.
Ela, uma mulher frígida e doente que não sai da cama há meses, quantos ninguém sabe. Ele, ativo, viajante, trabalhador, produtivo.
Um dia, porém, Luigi De Angelis, que se revela um anarquista, ideologia considerada crime na Itália do começo do século vinte, é acusado de assassinato e vê-se obrigado a fugir para não ser preso e ter seus planos, feitos com seus fiéis amigos, revelados. Ele, entretanto, não imagina que sua ausência causará uma enorme mudança na vida de sua esposa Antonia...
Que passa a tomar as rédeas da própria vida, desabrochando como a flor no advento da primavera, refazendo cada caminho que Luigi percorreu sem ela, adotando seu comportamento livre, desejando vingar-se de todas as traições e abandonos, para desespero deste, que somente pode observá-la tornar-se o que ele diz ter tentado fazê-la ser, mas que nunca logrou. Ou quem sabe nunca tenha realmente tentado.

"Quando uma mulher realmente quer, é mais determinada que os homens."

Os papéis se inverteram. Nada mais será a mesma coisa. Antonia, mesmo com medo, fará sua odisseia rumo à sua própria vida. Luigi só observará. Ambos, às suas maneiras, encontrarão o oceano no fim do caminho.


Primeira coisa que tenho a dizer sobre Esposamante, de 1977: quero abraçar FORTE o Marco Vicario. Agradecê-lo por ter sintetizado em 101 minutos o que muitos levam a vida inteira para aprender.
Segunda e agora comentando devidamente essa verdadeira joia do cinema italiano: apesar de dirigido por um homem, ele não perde o mérito de ser um filme que mostra o universo feminino de um jeito absolutamente real. Sobre como as mulheres, em outra época, tinham de assumir papéis determinados desde o nascimento, o preconceito sofrido por querer fazer “coisas de homens”, a repressão sofrida pelos homens e pela religião, a descoberta de si mesma quando em uma situação fora do comum e um monte de outras coisas que provavelmente iam alongar esse texto muito mais.
Simplesmente é nada menos que fantástica a sutileza misturada ao explícito e ao brutal da direção do Marco Vicario em todas as cenas do filme. Os três se complementando de uma forma incrível ainda que não haja violência no filme. Afinal, sutil, explícito e brutal, quando se trata de cinema, são conceitos que podem ter muitos significados.

 Não há uma cena sem sentido ou fora de contexto. Tudo nessa produção é primoroso: desde a fotografia até os figurinos. Isso se não contamos as atuações dos protagonistas, interpretados pelo “monstro” (no sentido de excelente ator) do cinema italiano Marcello Mastroianni e pela maravilhosa musa Laura Antonelli (inspiração para minha personagem Concetta Parisi, de A Alabarda e a Rosa) e dos coadjuvantes, que nada deixam a desejar na composição dos personagens. Que são igualmente importantes na história, sendo os responsáveis por Antonia Martinelli finalmente conhecer o homem com quem se casou. E conhecer a si mesma acima de qualquer coisa.

Embora no começo ela realmente tenha se focado em saber mais do marido, entender porque as coisas entre eles nunca deram certo. Afinal, quem não quer conhecer bem a pessoa com quem está, não é mesmo? No entanto, quando ela queima TODOS os móveis do escritório dele onde ela nunca entrou antes dele sumir, em uma cena linda, é que ela finalmente se sente livre para seguir o próprio caminho e mostrar quem ela realmente é. Já falei aqui em uma resenha sobre que, no começo do século vinte, as mulheres tinham um único papel realmente válido: esposa e mãe. Nesse filme, porém, como diria o famoso ditado “A ocasião faz o ladrão”, a Antonia, vendo o marido desaparecido, tem que assumir os negócios dele e fazer tudo o que Luigi fazia se quiser sobreviver, já que era de negociar vinhos que ele tirava o sustento da casa.


No entanto, Antonia faz muito mais do que só visitar os locais onde o marido esteve. Sutilmente, o diretor Marco Vicario faz ela crescer de tal maneira, entremeado por diálogos nada menos que maravilhosos, que chega uma hora no filme que a gente se pergunta porque o Luigi ainda quer se meter na vida dela. Igualmente nos questionamos como ele tem coragem de dizer que ela não é capaz de viver por conta própria mesmo ele vendo o óbvio jogado na cara dele. Por outro lado, o diretor mostra Luigi se remoendo por dentro ao perceber que a esposa dele é agora uma mulher livre e sem amarras querendo viver a própria vida. De Angelis, em certo momento, não suporta mais ver Antonia “se corrompendo”. E Vincenzo, o primo dele, diz na lata a seguinte frase...

"Você se considera corrupto?"

 E não apenas isso, mas também diz UM MONTE de verdades na cara dele sobre o quão hipócrita, covarde e babaca ele consegue ser a maior parte do tempo. Claro que com a mais absoluta sutileza. Além dele defender a Antonia porque ela é digna de admiração e ele ainda a ama apesar de todo o tempo já passado. Basicamente, o Luigi demora muito a perceber que ele é um obstáculo na vida dela e que se ele quiser agir realmente certo, precisa voltar e admitir afinal que foi derrotado.
Porque derrota não é sinal de fraqueza. É sinal de que você é humano e que assim como você ganha num dia, você perde no outro. Ou como diria o bom e velho treinador Mickey da série Rocky: A luta só termina quando o gongo toca. Ou como o próprio Rocky Balboa disse no excelente Rocky Balboa, de 2006: Ninguém baterá tão forte quanto a vida. Porém, não se trata de quão forte pode bater, se trata de quão forte pode ser atingido e continuar seguindo em frente. É assim que a vitória é conquistada.


A verdade é que a composição toda desse filme, desde os créditos iniciais até o último segundo, é de uma maravilhosa sutileza, nos deixando encantados sobre como o diretor consegue, com apenas uma cena, transmitir toda uma miríade de sensações. Até chegarmos em um determinado ponto, onde ela joga tudo para o alto e dá a cartada final em seu crescimento, e na sua vitória, deixando o Luigi nas portas do desespero, a tal ponto que ele mal consegue ver a cena sem quase cair nas lágrimas. Inclusive, durante toda a produção, é fantástico ver os closes nos olhos dos atores transmitindo toda a emoção do momento.

"O sentir-se culpado é pior que a própria culpa?"

Se eu tivesse que definir Esposamante com uma palavra, eu diria: excelente! Não apenas isso, na verdade: ele é sutil, emocionante, engraçado em algumas cenas e reflexivo em todas elas. E quando eu digo todas, não me levem de forma leviana. Eu falo de cada frame do filme. No fim da história, que eu não vou detalhar por ser spoiler, Vicario deixa em aberto para todas as possibilidades. Mas isso pouco importa mediante um fato: Antonia não foi a única que mudou. Todos de alguma forma mudaram, cresceram, se libertaram. Se levantaram depois que a vida lhes bateu com força.
Esposamante, no fim, não é apenas um excelente filme sobre uma mulher se libertando das correntes sociais de uma época distinta. Que devo dizer, ainda hoje persistem mesmo que não deveriam. É sobre crescer, mudar, querer fazer a diferença, seja na própria vida ou na de outrem. Sobre não permitir que outros digam o que você pode ou deve fazer. Que você é a dona da sua história e que apenas você pode escrevê-la.
Para esse Dia Internacional da Mulher, oito de março, é isso que eu tenho a dizer. Que a Força sempre esteja conosco! Porque...

21 comentários:

  1. Oi Renata.
    Gente do céu apesar desse filme ser velhinho eu nunca tinha nem sequer ouvido falar mas achei legal pois ele abrange temas que ainda são bastante atuais nos dias de hoje mas confesso que eu não sei se assistiria.
    Bj

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  2. Oi renata, assisti este filme tem um tempão e na época, queri que o universo assistisse também, porque a relevância do enredo e toda a produção, são dignas de reverencia. Lendo suas considerações, me deu vontade de rever. Adorei vê-lo aqui.
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

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  3. Olá!

    Passei pela sensação de: COMO ASSIM AINDA NÃO CONHECIA E NÃO ASSISTI ESSE FILEM?! Rsrs Podemos abraçar Antônia? Que personagem aparentemente incrível! Muita vontade de assistir (logo). Dica anotadíssima!

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    1. Oi Nathalia, como vai?
      Claro que podemos abraçá-la porque com certeza ela representa todas as mulheres que buscam ser muito mais do que aquilo que dizem para elas serem e parecerem! Por um mundo onde o nosso caráter e nossa capacidade definam quem somos.
      Beijos!

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  4. Olá ♥
    Não conhecia o filme, confesso que de inicio não me senti atraída pelo filme, mas depois que você começou a se aprofundar no enredo fiquei super curiosa, o enrendo parece trazer consigo coisas que por mais que fosse daquele tempo serve para nossa atualidade. Gostei das fotos que você escolheu. Bom saber que mesmo diretor sendo homem soube tratar e trazer bem o universo feminino para trama. Vou procurar esse filme para assisti, beijos!

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  5. Oie! Tudo bem?

    Parece ser um filme muito bom, principalmente para a época que foi produzido! Não sei se o assistiria por agora, mas com certeza deixarei ele anotado, pois a curiosidade de conhecer a história mais a fundo é grande!

    BJss

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  6. Cara Lady Renata: que a odisseia de Antonia, tão delicadamente tratada pelo diretor Marco Vicario, sirva de inspiração à evolução do comportamento patriarcal. Que a gente, homens, consiga perceber que a luta da mulher não é a de se igualar ao homem - o que seria uma bobagem, pois ela é melhor..., mas, sim, a de buscar respeito e consideração devida a qualquer ser humano, independente de credo, sexo, cor de pele, condição social, etc. É só - tudo - isso! De resto, parabéns pelo texto.

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  7. Nossa que filme lindo que abrange esse tema, infelizmente nos dias de hoje não temos direitos iguais que os homens e sofremos muito preconceito pelo fato de ser mulher, mas está mudando fluindo porque cada dia vamos ganhando mais voz

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  8. Olá!! :)

    Eu não conhecia este filme (esse também já e um pouco antiguinho... hehe) e ate fiquei cuiroso, mas não faz muito o meu género!

    que bom que trata de uma mulher a soltar-se das amarras sociais da época! :) Ainda que cliché, e interessante. Ótimo que e bem subtil também.

    Boas leituras!! ;)
    no-conforto-dos-livros.webnode.com

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  9. Olá, que post lindo! Amei a indicação do filme, não conhecia, fiquei super disposta em assistir <3

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  10. Oi, Renata!
    Nossa, como eu não conhecia esse filme? D: Tenho visto poucos filmes que trazem uma personagem tão interessante assim, acho que é muito importante ele também ter tanta sutilieza ao tratar não apenas da libertação da mulher, mas das transformações que todos passam. Fiquei muito interessada, vou procurar assistir!
    Bjus

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  11. Excelente dica de filme, sou fã do cinema italiano e digo que esse filme não conhecia.

    Vou cavucar por aqui p/ ver se encontro esse filme p/ ver. Morrendo de curiosidade p/ assistir. E as fotos são bem provocadoras, kkk

    Abraço, Renata, parabéns pela resenha!

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  12. Olá!!!
    Eu não conhecia esse filme,na verdade não sou mt ligada em filmes então vai aparecer uma penca de filmes que nunca ouvi falar como esse e caraaaa que filme!! Só em ler sua resenha/critica consegui visualizar cada cena na cabeça..adoro filmes assim mais antiguinhos e com certeza essa dica está anotada!!

    http://livroaoavesso.blogspot.com.br/2017/03/resenha-escandalos-na-primavera-lisa.html#comment-form

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  13. Oii, tudo bem?
    Eu ainda não conhecia esse filme. A premissa é bem interessante, mas não sei exatamente se eu o veria, pois fica um pouco longe da minha zona de conforto rsrs, mas eu vou colocar na listinha.

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  14. Oi, tudo bem?
    Confesso que nunca tinha ouvido falar sobre esse filme. Achei a premissa interessante e gostei da trajetória da protagonista: uma mulher forte, que vai se libertando das amarras e tomando as rédeas da sua vida.
    Gostei muito da forma como você apresentou a história e expressou as razões pelas quais você gostou do filme.
    No entanto, apesar de tudo isso, não me senti muito inclinada a assistir agora. Vou deixar a dica anotada para, quem sabe, assistir mais para frente.
    Beijos!

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  15. Oi, tudo bem? Tenho que confessar primeiramente que eu nunca ouvi nada sobre esse filme até agora e que mesmo com os diversos elogios que disse sobre ela, eu realmente não consegui me interessar. Não sou muito de ver filmes, e os antigos me deixam com uma certa agonia... não sei o que acontece, é só o que sinto. Mas gostei dele jogar verdades na cara de forma sutil, ter lições e que você tenha gostado tanto que dá para ver nitidamente em sua resenha. Não assistiria agora, mas não vou dizer que não assistirei no futuro, no momento apenas não é algo que me chame a atenção!
    Um beijo
    www.brookebells.com

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  16. Parece ser muito interessante, de verdade. Ótima dica! Dá para perceber por essa resenha incrível. Parabéns!

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  17. Eu estou apaixonadíssima por sua postagem e agora quero conhecer esse filme o quanto antes possível. Acho interessantíssimo a abordagem social da mulher, e em uma época totalmente diferente as coisas eram mais difíceis ainda, é interessante acompanhar a mudança de uma mulher tentando ser livre. Mal espero pra assistir :) Sua crítica está muito boa, parabéns!

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  18. Olá,

    De início eu não me senti atraído pelo filme, mas após fazer a leitura do enredo apresentado por você as coisas mudaram. O fato de um homem ter direcionado o filme me chamou muita a atenção, principalmente pela época que ele foi produzido.

    → desencaixados.com

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  19. Não conhecia esse filme - provavelmente por ser muito antigo e raramente vejo um filme que foi feito antes de eu ter nascido, haha!

    É muito bom saber, que em 1977, já se pensava a respeito do papel da mulher na sociedade e se buscou maneiras de quebrar esse espelho. Afinal, é pra isso que servem os filmes: um espelho daquilo que é a nossa sociedade. Claro que tais conceitos da mulher servir apenas para ser esposa e mãe estão mudando, pois nós mulheres temos lutado ativamente para provar que podemos chutar bundas também. Mas sabemos que ainda existem muito Luigis para serem deixados de escanteio para aprender que às vezes, a única coisa que segura uma pessoa, é outra pessoa.

    Abraços!
    www.asmeninasqueleemlivros.com

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  20. Não conhecia esse filme - provavelmente por ser muito antigo e raramente vejo um filme que foi feito antes de eu ter nascido, haha!

    É muito bom saber, que em 1977, já se pensava a respeito do papel da mulher na sociedade e se buscou maneiras de quebrar esse espelho. Afinal, é pra isso que servem os filmes: um espelho daquilo que é a nossa sociedade. Claro que tais conceitos da mulher servir apenas para ser esposa e mãe estão mudando, pois nós mulheres temos lutado ativamente para provar que podemos chutar bundas também. Mas sabemos que ainda existem muito Luigis para serem deixados de escanteio para aprender que às vezes, a única coisa que segura uma pessoa, é outra pessoa.

    Abraços!
    www.asmeninasqueleemlivros.com

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