17 fevereiro 2017

[Resenha] A guerra não tem rosto de mulher - Por Svetlana Aleksievitch



Título: A guerra não tem rosto de mulher
Autor (a): Svetlana Aleksievitch
Páginas: 392
Editora: Companhia das letras
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Sinopse: A história das guerras costuma ser contada sob o ponto de vista masculino: soldados e generais, algozes e libertadores. Trata-se, porém, de um equívoco e de uma injustiça. Se em muitos conflitos as mulheres ficaram na retaguarda, em outros estiveram na linha de frente.
É esse capítulo de bravura feminina que Svetlana Aleksiévitch reconstrói neste livro absolutamente apaixonante e forte. Quase um milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, mas a sua história nunca foi contada. Svetlana Alexiévitch deixa que as vozes dessas mulheres ressoem de forma angustiante e arrebatadora, em memórias que evocam frio, fome, violência sexual e a sombra onipresente da morte.

"O ser humano é maior do que a guerra...
A memória guarda justamente os momentos em que ele foi maior. Ali, ele é guiado por algo mais forte do que a história. Preciso pegar o que é mais amplo — escrever a verdade sobre a vida e a morte em geral, e não só a verdade sobre a guerra. Fazer a pergunta de Dostoiévski: o quanto há de humano no ser humano, e como proteger esse humano em si? Sem dúvida, o mal é tentador. Ele é mais hábil do que o bem. Mais atraente. Mergulho cada vez mais fundo no infinito mundo da guerra, todo o resto perde um pouco das cores, torna-se mais comum do que o comum. Um mundo grandioso e feroz. Entendo agora a solidão da pessoa que volta de lá. É como se viesse de outro planeta ou do além. Ela tem o conhecimento de algo que os outros não têm, e só é possível conquistá-lo ali, perto da morte. Quando tenta transformar isso em palavras, tem a sensação de uma catástrofe. A pessoa se cala. Ela quer contar, o resto queria entender, mas estão todos impotentes."

Quando pensamos em guerra, principalmente na segunda guerra mundial, pensamos em homens corajosos, que deram seu sangue e sua vida por seus países. Homens que saíram de suas casas, deixaram suas mães, esposas, filhas e irmãs em casa, chorando e lamentando suas partidas, e imersas em uma longa espera. Porém, não foi bem assim. Na Rússia, no exército vermelho, muitas mulheres, querendo lutar de forma igual com seus homens, foram para a linha de frente, e tiveram papel fundamental e decisivo em cada uma das batalhas. Muitas eram apenas meninas, que deveriam estar na escola, outras, eram mães que tiveram de deixar seus bebês para trás, mas ali, lutando por seu país, eram uma só, com um só desejo, o de ajudar naquilo que fosse possível. Elas trabalharam como padeiras, enfermeiras, comunicadoras, mas também foram soldados, tanquistas e sargentos.

"... Em junho de 1943, na batalha de Kursk, confiaram a nós o estandarte do regimento, e o nosso, o 129º Regimento Especial de Comunicações do 65º Exército, era composto em 80% por mulheres. E é isso o que eu quero falar, para que você imagine... Para que entenda... O que se criou em nossa alma, o tipo de pessoa que éramos na época, nunca mais vai existir. Nunca! Tão inocentes de tão sinceras. Com tamanha fé! Quando nosso comandante recebeu o estandarte e deu a ordem: ‘Regimento, sob o estandarte! De joelhos!’, todos nos sentimos felizes. Pareceu-nos uma prova de confiança, agora éramos um regimento como todos os outros: de tanques, de artilharia. Ficamos ali chorando, todos tínhamos lágrimas nos olhos. Você não vai acreditar agora, mas todo meu organismo fica tenso de emoção; minha doença — eu estava com cegueira noturna por subnutrição, por esgotamento nervoso —, pois então, minha cegueira noturna desapareceu. Entende? No dia seguinte eu estava curada, eu me curei, tanta foi a comoção da minha alma...”

Porém, assim que voltaram, feridas física e emocionalmente, essas mulheres foram obrigadas a esquecer, como se aquilo já não mais fizesse parte delas. Tiveram de voltar a ser mulheres, como se exigia na época, tiveram de ser donas de casa, mães, esposas, e tiveram de abafar essa parte tão importante de seu passado, e ainda, muito tempo depois, enquanto davam suas entrevistas para o livro, muitas delas não se sentiam a vontade em falar daquilo, ou seus maridos não lhes permitiam. Foram mulheres que viram o inimaginável, conviveram com a dor e a perda de perto e merecem, tanto quanto os homens, mérito, por terem feito parte dessa luta e por terem vencido e voltado vivas para casa para darem continuidade às suas vidas, mesmo que uma parte de si tenha ficado para trás no processo.

“Se havia amor na guerra? Havia! E as mulheres que encontramos lá são esposas maravilhosas. Amigas fiéis. As pessoas que se casaram na guerra são as mais felizes, os casais mais felizes. Nós também nos apaixonamos no front. Em meio a fogo e morte. É um vínculo sólido. Não vou negar que também teve outras coisas, porque foi uma guerra longa, muitos de nós estivemos na guerra. Mas me lembro mais do que é luminoso. Nobre.
Me tornei alguém melhor na guerra... Sem dúvida! Me tornei uma pessoa melhor lá porque havia muito sofrimento. Vi muito sofrimento, e eu mesmo sofri muito. Lá, logo se descarta o que é secundário na vida, o que é supérfluo. Você entende isso..."

nessa reportagem tocante e sensível, Svetlana Aleksievitch conseguiu capitar a essência de cada mulher, abordar seus maiores medos, suas fraquezas e também suas boas lembranças, e as reuniu, em um livro que mais parece um álbum de recortes, onde podemos compreender e entender um pouquinho de cada uma daquelas mulheres e podemos de certa maneira homenageá-las ao conhecermos suas histórias.

"O gravador registra as palavras, conserva a entonação... As pausas. O choro e o embaraço. Entendo que quando uma pessoa está falando acontece algo maior do que o que fica no papel depois. Lamento o tempo todo por não poder “gravar” os olhos, as mãos. A vida delas na época da conversa, a vida pessoal. Separada. Seus “textos”."





Assim que foram lançados os livros de Svetlana Aleksievitch aqui no Brasil, imediatamente fiquei com vontade de lê-los, pois percebi que a autora traz reportagens sobre acontecimentos intensos e tocantes que aconteceram no passado e dá voz para as pessoas que estiveram neles, além de ter uma curiosidade forte em como seria a sua escrita, uma vez que ela foi a ganhadora do prêmio Nobel de literatura de 2015. Porém, adiei a leitura por algum tempo, por ter certo receio da complexidade que poderia encontrar ali, mas dia desses, com vontade de ler sobre a segunda guerra, seu livro foi minha primeira opção de leitura, e então o comecei. Assim que iniciei a leitura, encontrei alguns relatos bastante fragmentados, que a princípio me pareceram estranhos, mas imaginei que aquilo era apenas uma introdução, uma amostra pequena do que encontraríamos a seguir na leitura, e que ela passaria a adotar uma escrita mais continuada. Porém, a medida que fui evoluindo no livro, fui ficando fascinada e tocada por cada um dos relatos, mas também percebi, com espanto, que aquele seria o modo de narração de todo o livro, sendo que ela trazia o fragmento do relato de uma mulher, logo em seguida trazia o de outra e assim por diante e isso fez com que a leitura, apesar de positiva, tivesse um certo gosto de decepção para mim, pois acabei vendo o livro como um enorme quebra cabeças, sendo cada relato ali uma pecinha diferente e única, que se encaixam para formar um panorama geral. Mas por esses relatos serem muitos, acabei não fixando nenhum na mente, e ao final do livro, tinha poucas lembranças muito específicas do que havia lido, e tinha apenas um vislumbre geral de todo o ocorrido.

O ponto mais positivo da obra para mim, foi o fato de a autora capitar a essência de cada uma daquelas mulheres, enquanto ela se sentava em suas salas e cozinhas, e conversava com elas sem amarras, sem receios, e lhes perguntava as coisas mais difíceis de elas lembrarem, mas coisas que fizeram parte de suas vidas, e ela mesma, sendo uma mulher, levou cada uma daquelas mulheres a se abrirem com sinceridade. Também, falando-se de sinceridade, achei bacana a preocupação da autora, que ela nos menciona no livro, de selecionar relatos que lhe parecessem muito fieis, sem qualquer um que parecesse fantasioso ou não verídico.

Porém, como já mencionei, as narrações curtas de cada mulher, trazendo então muitas para comporem o livro, me pareceram um álbum de recortes, ou um quebra-cabeças, e isso me prejudicou na fixação do conteúdo, pois, por exemplo, quando estamos em um lugar, e vemos muitos rostos, não gravamos todos, apenas alguns nos marcam e ficam, os outros, apesar de importantes, acabam sendo perdidos no turbilhão de nossas mentes, e é exatamente o que aconteceu nesse livro, embora cada relato seja tão emocionante que eu gostaria de guardá-los, um por um na minha memória. Também, o fato de os nomes russos serem bastante diferentes, acaba não contribuindo para que nos lembremos deles com tanta facilidade.

O livro traz uma grande diversidade de "personagens da vida real", desde aquelas que queriam ir para a guerra, até aquelas que não queriam ir e foram obrigadas pelas circunstâncias e nos mostra aquelas que encontraram, durante a guerra, tempo para o amor, para a amizade, e principalmente para a solidariedade humana, que não tem limites e em tempos de maior necessidade fica ainda mais perceptível.

A narração da obra é em primeira pessoa, onde podemos acompanhar os relatos de cada mulher. O livro é  dividido em capítulos, com diversos temas, e dentro desses capítulos existem diversos relatos. Além disso minha leitura foi realizada em ebook e não encontrei erros.
Recomendo o livro para aqueles que gostam de obras com um tom de reportagem, e também para quem gosta de acompanhar relatos sobre o tema segunda guerra e sobre heroínas e humanidade.

12 comentários:

  1. Que resenha! Que Livro! Que titulo! Com certeza eu gostaria de ler porque adoro histórias da guerra.... embora seja totalmente contra..... mas com certeza vou anotar pra ler está esta grande obra! A visão das mulheres realmente deve ser tocante! Um abraço

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  2. Olá
    Eu nao conhecia esse titulo, mas preciso confessar que essa premissa não chamou a minha atenção. Achei a capa é bonita até, mas ainda assim os elementos não conseguiram me deixar curiosa. Gostei de ler suas impressões a respeito, e o que mais se destacou para mim foi o fato de haver esse tom de reportagem..
    Beijos, Fer
    www.segredosemlivros.com

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  3. Tammara, o que mais me chamou a atenção na sua resenha, foi a questão da narrativa ser em um tom de reportagem. Acho que assim, a imparcialidade dos acontecimentos é mais evidente. Adorei suas considerações e pretendo ler.
    Meu Amor Pelos Livros
    Beijos

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  4. Uau, ainda não tinha lido nada sobre esse livro, não sabia que eram relatos reais. Achei interessante, apesar de não ser muito fã de não ficção.
    Pretendia antes conhecer outro lado da autora... Ela escreve ficção? Eu nem sei, mas gostaria de começar por lá e depois ler esse :D



    ourbravenewblog.weebly.com
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  5. Não é meu tipo de livro, mas com certeza é uma abordagem importante. A mulher desde sempre nunca foi reconhecida, por mais que tenha se esforçado sempre era considerada apenas uma Dona de casa ou mãe que cumpria suas obrigações, essas mulheres precisam ser reconhecidas, me parece ser um ótimo livro. Parabéns peka resenha bjs

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  6. Não conhecia o livro e achei ótima a ideia da autora. Apesar disso, concordo contigo sobre os muitos relatos desconexos prejudicaram a narrativa em si. Uma pena isso. Mesmo assim gostaria de ler.
    Bjs

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  7. Oi, Tamara!
    Nunca me aventurei em um livro sobre as tristezas da guerra, mas já assisti bastante filme relacionado, que sem me emocionam. Com certeza essa leitura é bem rica em fatos, e conhecimento, fico imaginando o quando essas mulheres sofreram e tiveram que lutar em meio ao caos que deve ter sido os tempos de guerra.
    O fato da autora ganhar um prêmio Nobel, já torna a leitura muito mais que bem-vinda.
    Parabéns pela resenha!

    Beijos!
    Eli - Leitura Entre Amigas
    http://www.leituraentreamigas.com.br/

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  8. Olá, confesso que estou alegre demais com esse livro, não sabia da existência dele e estou me martirizando por isso, semprei amei livros jornalisticos ou ficção que tenham como tema as guerras, gosto de ver depoimentos de pessoas que viveram nesse tempo, e ver algo assim apenas contado com a versão de mulheres guerreiras chamou muito a minha atenção, irá para minha lista de desejados

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  9. Uaaau, adorei os quotes. Dá pra entender porque foi indicado ao nobel da literatura!

    seguindo o blog!
    jvmedeiros.blogspot.com

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  10. Olá!
    Adorei a resenha do livro. Gosto de livros que tratam o tema em forma de reportagem, inserindo o relato dessas mulheres que sofreram tanto durante a guerra. Não deve ter sido fácil para essas mulheres contar para a autora detalhes de um momento de suas vidas que a fazem sofrer até hoje.
    Não conhecia o livro, mas estou fascinada com o tema e curiosa sobre o que essas mulheres tem a nos contar. obrigada pela dica.
    Bjs.

    www.salaliteraria.com.br

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  11. Sempre fiquei curiosa a respeito desse livro, achei a sinopse intrigante, bem como a capa.

    Não sabia que, ao inves de uma historia ou relatos completos, o livro era composto por diversos pequenos relatos... Complica uma leitura que já é ligeiramente complicada. Deve ser interessante observar o modo com o qual ela conseguiu esses relatos, como ela os escolheu para serem claramente reais. Mostra de fato o rosto das mulheres na guerra...

    Ótima indicação, afinal de contas!

    Abraços!
    www.asmeninasqueleemlivros.com

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  12. Não conhecia esse livro, e apesar de achar a proposta se mostrar as mulheres nesse meio tão brutal, não é meu tipo de livro. Não gosto de ler nada sobre guerra, então apesar da relevância social da narrativa eu não leria.
    Que pena que faltou um pouquinho mais de espaço para as histórias.

    Beijos

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