05 janeiro 2017

[Claquete] Filme - A Garota Dinamarquesa


Sinopse: Cinebiografia de Lili Elbe que nasceu (foi designada) homem e foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo (redesignação sexual). Em foco, o relacionamento amoroso dela com Gerda e sua descoberta como mulher.

Título: A Garota Dinamarquesa
Título Original: The Danish Girl
Lançamento: 27 de novembro de 2015
Duração: 1h59min
Diretor(a): Tom Hooper
Gênero: Drama

Einar Wegener é um bem sucedido pintor de paisagens, especialmente as de sua terra natal, Vejle, Dinamarca. Gerda Gottlieb é uma pintora de retratos de pessoas importantes e é casada com ele desde 1904. Os dois são um casal bastante avançado para a época e ainda não realizaram o sonho que todos naquele tempo tinham: um filho.

"- Na primeira vez que nos vimos, ela me seduziu, parecia tão confiante.
- Eu estava confiante, ele era tão tímido e misterioso."

No entanto, em uma tarde, onde a modelo de Gerda faltou ao ensaio em razão de outro compromisso, Einar se vê usando meias, sapatos e sobre o torso, um vestido branco, sendo o modelo que a esposa necessitava.

"- O que exatamente aconteceu na noite passada?
- Houve um momento em que eu não era eu, um momento que eu era apenas... Lili."

Deste dia em diante, tudo mudou. Einar percebeu que algo estava profundamente errado consigo mesmo. Entretanto, não era errado, era apenas a falta de conhecimento sobre Lili, a pessoa que sempre esteve lá. Com seus sonhos e desejos. Uma bela flor que nasceu no meio da ignorância e do preconceito. A coragem de ser quem realmente é. Conheçam a história de Lili Elbe...



Oi gente maravilhosa do blog Rillismo e da internet, e vamos combinar que às vezes nem tão maravilhosa assim, né? Eu sou a Lady Trotsky e hoje venho com um claquete sobre um dos melhores filmes de 2015. E que é um dos mais maravilhosos que assisti até hoje.

Baseado em um romance biográfico ficcional do autor David Ebershoff, A Garota Dinamarquesa tem como seus atores principais o britânico Eddie Redmayne, vencedor do Oscar em 2015 por A Teoria de Tudo, onde ele foi o físico Stephen Hawking e indicado ao mesmo prêmio em 2016 pelo filme aqui comentado (inclusive eu acho que ele merecia ter ganho), e a sueca Alicia Vikander, que venceu o de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação como Gerda, um prêmio extremamente merecido porque ela realmente fez bonito no filme.

Vocês devem estar se perguntando porque, ao invés de uma resenha, resolvi voltar a criticar filmes. Como devem ter visto na sinopse acima, o filme trata de uma questão ainda muito complicada, mesmo com todos os avanços do século vinte e um: a transexualidade.

Janeiro é considerado Mês da Visibilidade Trans, razão pela qual eu trouxe esse filme para o Rillismo e até mesmo eu fiz uma saudação diferente da minha costumeira. Que caso vocês acompanhem o Youtube, vão reconhecer. Cuja youtuber pretendo entrevistar se Deus quiser. E óbvio, resenhar o livro dela.
Mas, vamos voltar a falar do filme, que é o assunto desse texto...


Antes de tudo, fiz dois parênteses na sinopse porque ela está usando termos que hoje estão em desuso quando falamos de transexualidade. Porque ninguém nasce com um gênero, é designado com tal e pode se identificar ou não com ele à medida que vai crescendo. Exemplo: eu fui designada como mulher em razão da minha fisiologia e me identifico como tal, portanto, sou uma mulher cisgênero. Outra coisa, e não menos importante, a cirurgia a qual muitos trans se submetem chama-se "redesignação sexual". Nem todas as pessoas trans têm necessidade de tal procedimento. Quem o faz, no entanto, é antes diagnosticado com a chamada "disforia de gênero", onde a pessoa necessita da operação para se sentir realmente dentro do gênero com o qual ela se identifica. O caso de Lili Elbe, que também tinha uma condição chamada "intersexualidade", ou seja, ela tinha características femininas.

Entrando de vez na questão do filme, ele definitivamente é um retrato, de profunda sutileza, das fases de uma pessoa transexual entre a descoberta e a aceitação. A única vez em que a gente vê o preconceito de uma forma mais explícita é quando a Lili, ainda Einar na ocasião, ouve alguns desaforos de dois idiotas e sai no soco com um deles para acabar tomando uma surra em retribuição. Se ainda hoje absurdos como esses existem, imagina em 1926? Época em que assuntos como sexo e compreensão de gênero ainda eram extremamente rudimentares em termo de estudos se comparar com os dias atuais, onde infelizmente o preconceito ainda permanece. Tanto é que, quando você assistir ao filme, precisa pensar, ou pelo menos imaginar, com a cabeça daquele tempo.


Ok, é difícil com certeza, mas é a única maneira de compreender realmente a história. Especialmente porque até a própria Lili, embora soubesse quem realmente era, não tinha consciência da própria limitação física. Ela piamente acreditava que era possível transplantar um útero para ser capaz de ter filhos. Ela sonhava em ser mãe. Para vocês verem como era o pensamento naquela época com relação às mulheres. O que ainda hoje muita gente pensa.

Eu amei o filme, mas vários acharam que ele não se nivela à história real de Lili Elbe. Gente, temos que levar em consideração, nesse aspecto, dois pontos: uma fidelidade demasiada impediria os leitores de buscarem o livro original. Também, colocar uma história dessas em duas horas de filme não é tarefa fácil, ainda mais porque o mesmo não é pequeno. Tanto que foi apenas no final que me dei conta que cinco anos tinham se passado desde o início. O que não me impediu de amar essa produção.


E o que comentar da excelente reconstituição de época e dos figurinos? Ambos muito bem feitos! Vestidos e echarpes de encher os olhos e penteados que com certeza muitas adorariam poder usar, porque cabelos curtos são tudo!

A atuação dos atores principais e coadjuvantes também não deixa nada a desejar embora aqui eu vá entrar em outra polêmica: o fato de que Lili Elbe é interpretada por um ator cisgênero. Uma coisa que muitos trans não gostaram por conta da falta de representação da qual muitas minorias reclamam. E aí  que eu entro em outros dois pontos...


O Tom Hooper é bastante conhecido por ser extremamente fiel ao contexto histórico nos filmes de época que ele faz. Caso alguém não esteja informado, ele foi o responsável por Os Miseráveis, de 2012, e O Discurso do Rei, de 2009, neste último agraciado com o Oscar de Melhor Direção, ainda que com muita controvérsia. O que me leva ao terceiro ponto sobre esse filme, que é muito importante: naquela época não existia tratamento hormonal para transição de gênero, portanto, seria impossível Lili ser interpretada por uma mulher trans. Uma atriz trans no comecinho da transição até seria possível, mas encontrar alguém assim é uma tarefa que demanda tempo e muitos testes. Além de um custo um bocado alto e naturalmente, filmes tem cronograma e muitas vezes ele é mais apertado que a roupa da Mulher-Gato.

Caso alguém pergunte, os hormônios para transição de gênero só começaram a ser sintetizados e usados a partir da década de quarenta, na Dinamarca. E ainda era muito rudimentar se comparado com a atualidade. Vou até dar um exemplo para que entendam a dimensão da coisa. Olhem as fotos abaixo e me respondam: qual a diferença entre elas?


Resposta: algumas décadas de avanços científicos e tecnológicos, que tornaram possível que uma mulher trans pudesse ter o direito de se tornar quem ela é.

O diretor optou por um ator de calibre para o papel principal. Sim, isso não parece muito importante, mas se a gente considerar que Lili Elbe exigia um ator experiente no papel, a escolha do Hooper é compreensível. A atuação do Eddie Redmayne pode parecer meio afetada em alguns momentos, mas quando pensamos com cuidado na situação da Lili, é fácil de entender. Ainda mais quando se conhece a fundo a história real do conflito interno entre Einar e Lili. Um texto externo para vocês terem uma melhor ideia do que eu quero dizer: (aqui)
Se ainda hoje é complicado para muita gente aceitar isso, imagina como devia ser lá nos anos vinte? Em especial a Gerda, que se viu perdendo o marido e tendo que lidar com isso. No começo, óbvio, ela não aceita muito bem a situação, mas, com o passar do tempo, ela vai percebendo que o homem com quem ela se casou não existe mais, provavelmente nunca existiu, e que ela precisa aceitar a realidade: Lili é real, não tem como evitar.


O que acontece MUITO com as famílias de pessoas transexuais, que muitas vezes se recusam a aceitar a pessoa, e até mesmo, expulsam ela de casa ou tentam forçá-la a ser algo que não é. Isso sem contar o tremendo preconceito médico sofrido por Lili Elbe, que foi diagnosticada como homossexual e até mesmo esquizofrênica, inclusive tendo corrido risco de internação.

Sim, homossexualismo foi considerado doença até meados dos anos setenta. E ainda hoje, em vários países, ser gay é crime punido com cadeia ou morte. Na Inglaterra, inclusive, foi crime até 1967 e nos outros países do Reino Unido até meados dos anos oitenta. Isso é apenas uma pequena mostra do quanto a humanidade AINDA precisa evoluir em termos de mentalidade. Se bem que não precisa ir longe para sabermos o quanto somos ainda um bando de idiotas. Liguem a TV ou leiam notícias.
No fim das contas, A Garota Dinamarquesa é uma excelente produção que com certeza merece uma conferida por parte de quem gosta de belas e dramáticas histórias.




21 comentários:

  1. Olá
    Esse é um filme que eu quero muito assistir. Já vi esse trailer inumeras vezes e estou bem empolgada. Confesso que tinha deixado um pouco de lado essa vontade de conferir, mas depois de ler sua postagem, com certeza irei procurar logo, logo. As atuações devem ser incríveis né?!

    Beijos, Fer
    www.segredosemlivros.com

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  2. O que mais me chocada é que até um tempo atrás transexualidade estava no livro de doenças mentais, COMO ASSIM GENTE? isso me deixava profundamente triste. Quando assisti esse filme, a ultima cena me tocou demais, fiquei alguns minutos refletindo sobre e fui procurar fotos da Lili de verdade. Gostaria muito de ler o livro para que assim pudesse ter mais detalhes dessa história tão bonita.

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  3. Nossa! Preciso assistir esse filme e logo! E obvio comprar o livro para ler e comparar com o filme também e o Eddie é perfeito em qualquer filme que ele faça, ele consegue entrar no personagem de uma maneira que deixa muitos no chão! Ótima resenha!
    Bjss http://resenhasteen.blogspot.com.br/2017/01/apenas-um-garoto.html

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  4. Tanto o livro quanto o filmes parecem ser maravilhosos! Esse ator é incrivel! Quero muito ler e assistir a história, acho que todos podemos retirar algo dela como aprendermos a sermos fieis a nós mesmos sem se importar com a opinião de 3°s

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  5. Muito revoltante o homossexualismo ser considerado uma doença ou crime. Ainda não tive a oportunidade de assistir o filme mas pretendo fazê-lo em breve!

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  6. Oi!
    Acho horrível como muitas pessoas são preconceituosas. Expulsar uma pessoa de casa ou não aceitá-la e em circulo social porque ela é transsexual? Gente, ridículo! E o pior é que isso não é ficção, acontece na vida real.
    Admito que não é meu gênero de filme/livro preferido, mas é ótimo para quando você quer sair da sua zona de conforto e arriscar com algo novo.
    Beijos!

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  7. Olá, tudo bem com você?
    Eu, acredite ou não, ainda não li e muito menos vi esse filme. Tenho muita vontade de assistir em breve! Fico feliz que você tenha curtido muito o filme, e sua interpretação da obra achei bem legal. Sua resenha está bem explicativa e tira dúvidas de muita gente que não tem certeza se deve assistir ou não! Espero assistir esse fim e em breve. Adorei o post, Até mais ver
    Bjks

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  8. Ai, não vi ainda esse filme, mas quero muito, desesperadamente. E também quero muito ler o livro. Eddie Redmayne no elenco não é qualquer coisa, esse cara manda muito bem.

    Beijos,
    Aline - Livro Lab

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  9. Que resenha completa e adorei os dados sobre as datas e as formas como a transição de gênero é feita. tenho curiosidade para ler o livro e depois assistir o filme, porque acho que está recheado de representatividade. Só uma questão, é que o uso do termo homossexualismo foi banido e agora o certo é homossexualidade.
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

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  10. Eu já tinha visto o nome desse filme por aí, mas nem tinha ideia de que tratava de um tema tão delicado como esse. O Eddie, pelo que pude perceber em Animais Fantásticos, é um ator excelente e ver ele dando vida a uma personagem como essa deve ser impressionante e emocionante. Até então eu não tive vontade de ver, mas depois de ver essa crítica, vou fazê-lo o mais rápido possível.

    Um abraço!
    Parágrafos & Travessões

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  11. Não assisti ao filme ainda, mas é um que quero muito ver. Fico encantada com a sua resenha, quando um filme é bom, nos trás pensamentos bons. Infelizmente, como você disse, as famílias geralmente não aceitam essas pessoas, muitas vezes por causa da sua criação ou da época mesmo que viveu. Mesmo assim é importante ver o quanto as pessoas estão cada vez mais ganhando destaque nas suas lutas. ótima interpretação. Beijos.

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  12. Oi,

    Este filme está na minha lista há muito tempo. Depois da sua resenha não vou adiar mais. Uma história impressionante e que nos fazem pensar no preconceito em relação a orientação sexual de cada pessoa. Gostei muito da resenha.

    Beijus
    jusemfrescura.blogspot.com.br

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  13. olá Renata,
    Já vi a indicação desse filme muitas vezes, mas nenhuma com uma abordagem como a sua. Acho que esse filme tem uma temática muito interessante e atual. Não lembro de ter visto nada com essa temática, mas gosto de pesquisar sobre.
    Esse filme parece ser muito impactante e espero assistir para formar uma opinião.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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  14. Oiee Renata ^^
    Vi uma discussão uma vez sobre quem deveria ganhar mais destaque no filme: a Lili ou sua esposa, por tê-la apoiado tanto quando muitos teriam virado as costas ou feito pior. Eu não sei o que opinar a respeito disso...haha' achei que ambos os atores arrasaram (Eddie ♥), e adorei o filme. Mas sei que ele não é um retrato totalmente fiel da vida da verdadeira Lili, e eu gostaria de saber mais a respeito dela :/
    MilkMilks ♥
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

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  15. Tenho muita vontade de ver este filme, embora ainda não tenha tido a oportunidade. Gosto muito de ambos os atores que estão nele a história me parece encantadora.

    Não li a fundo a resenha para não ter spoilers!!!

    Abraços!

    www.asmeninasqueleemlivros.com

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  16. Oi Renata, tudo bem?
    Eu já vi esse filme na época do lançamento e me apaixonei pela história, é realmente emocionante observar tudo que Lili teve que passar, e você tem razão, se ainda hoje é extremamente difícil para as pessoas transexuais, imagine só naquela época? Não consigo deixar de ficar indignada com tantos abusos que essas pessoas sofrem, me parece que as pessoas não evoluíram em nada, né? Mas enfim, é um filme maravilhoso que todos deveriam conhecer e, quem sabe, abrir um pouco a mente em relação ao assunto abordado.

    Beijos! ♥

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  17. Renata, seu post ficou simplesmente maravilhoso! Adorei saber tua opinião sobre o filme. Eu assisti e adorei! É tão encantador quanto tocante, e o Eddie está simplesmente fantástico neste papel. Como não amar e admirar esse homem? <3
    Beijoos

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  18. Oi, tudo bem? Já tinha ouvido falar sobre o filme e tinha me interessado muito sobre o tema, mas infelizmente fui deixando de lado e não conferi a produção. Porém, mesmo sem assistir, acho que a produção deve ser excelente mesmo e quero poder conferir em breve o filme. Beijos.

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  19. Olá,
    Ainda não vi a adaptação e nem li a obra. Mas essa acho que foi a terceira resenha que vejo sobre o filme e tenho que dizer que fiquei intrigada para ver essa mudança na época em que todo o enredo se desenrola. Sem contar que a reconstituição que vi da época no trailer parece ter sido feita com maestria.
    Adorei saber suas impressões e vou tentar ler e assistir.

    http://leitoradescontrolada.blogspot.com.br/

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  20. Oie,
    Vi pelos lançamentos no filmow e cheguei a adicionar para assistir, mas até hoje não assisti, e confesso que depois de ler sua resenha, não acho que agora é o momento para mim conhecer essa obra, ela é interessante e tudo mais, mas não é o que estou procurando para assistir entende? Enfim, mais pra frente pretendo assistir e espero gostar tanto quanto você.

    Beijos
    Bru, Cantinho da Bruna

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  21. Oi.
    Tudo bom?
    Não conhecia esse filme é achei interessante abordar a transexualidade, um tema que não é muito abordado.
    Adorei sua crítica.
    Beijos

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