09 dezembro 2016

[Resenha Musical] Oscarito - Por Flávio Marinho



Título: Oscarito
[O riso e o siso]
Autor (a): Flávio Marinho
Páginas: 334
Editora: Grupo editorial record
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Sinopse: Em 'Oscarito - O riso e o siso', o diretor e autor teatral Flávio Marinho disseca a vida do comediante Oscarito. Desde sua chegada ao Brasil, com apenas dois anos de idade, passando por sua infância no Rio de Janeiro, a influência do circo em seu jeito de atuar. As primeiras peças, a estreia no cinema, o estrelato no teatro de revista e nas chanchadas da Atlântida até os últimos dias, já longe dos holofotes. O biógrafo recupera a trajetória artística de Oscarito, apresentando suas principais peças e filmes, contextualizando as referências e listando outros artistas que marcaram época atuando ao lado do comediante. Flávio remonta a trajetória do comediante com base em entrevistas exclusivas, depoimentos e material de pesquisa.

Resumir esse livro é quase um crime, mas, terei que...
Oscarito foi mais que um comediante. Ele foi o representante de uma época em que a comédia tinha um único objetivo: fazer rir sem pensar, e muito inocentemente, divertir as plateias, embora já existissem cômicos inclinados a causar incômodo e reflexão com seus desempenhos e piadas.

Ele foi o mais brasileiro dos espanhóis ou mais espanhol dos brasileiros? Isso pouco importa.
Oscarito foi engraçado e sério, homem e mulher, loucura e sanidade, malandragem e moralismo, quem sabe todas as dicotomias existentes em um ser humano, mesmo que algumas delas se restrinjam apenas ao palco e tela. Foi pai, marido, namorado, apaixonado, ator, tudo o que podia ser. E conseguiu com sucesso. Um campeão da vida que viveu duas vezes: uma para si mesmo e outra para os seus sonhos*¹. Que teve todo o tempo deste mundo*², eterno enquanto durou, para ser o maior cômico do Brasil, considerado superior até a Charles Chaplin.
Convido vocês a conhecerem a história de Oscarito. Que entre palhaços e pierrôs, foi o preferido*³.




Essa foi a primeira biografia da minha vida e nunca achei que elas pudessem ser tão lindas, envolventes, bem humoradas e emocionantes na mesma proporção. Pelo menos essa em especial, que me envolveu do início ao fim, de tal forma que demorei de propósito para terminar. Porque é impossível largar o livro sem se apaixonar (eu já era apaixonada e fiquei ainda mais) pela fascinante figura que foi Oscar Lorenzo Jacinto de la Imaculada Concepción Teresa Diaz, ou simplesmente Oscarito. Nascido em Málaga, Espanha, em 1906, e anos depois considerado o maior cômico do Brasil. E inclusive comparado com Charles Chaplin em razão do inato talento que tinha para fazer todo mundo rir, porque fazer rir é muito mais difícil do que causar lágrimas. E Flávio Marinho consegue, em um livro lindo, envolvente, adorável e triste na mesma apoteótica proporção, nos contar sobre a figura simples e ao mesmo tempo tão complicada que foi Oscarito.

O livro em sua edição física reflete bem seu conteúdo: uma capa linda e combinando perfeitamente com o retratado, uma excelente fonte para leitura e um design lindo de se ver.

Nos palcos e tela, esse homem, tão genial e ao mesmo tempo tão humano, era um gênio da comédia que não precisava de roteiro para fazer o que fazia mas fora delas, uma pessoa séria, tímida, retraída. Talvez um pouco difícil de lidar, mas que, apesar desses defeitinhos, tinha um coração feito do mais puro e sincero amor. Desculpa, titio Flávio, mas ouro é apenas um minério. E um coração de verdade é feito de amor.

Amor, essencialmente, não tem forma, mas tem muitas maneiras de ser. E Oscarito, na sua própria e dicotômica essência humana, era feito de todas elas, tal qual uma certa Garnet*. Amou como um namorado apaixonado, e como ninguém mais foi capaz, sua eterna musa Margot Louro, sua amada e ao mesmo tempo, sua protetora*. Que o amou de maneira igual e intensa, pois como ele, ninguém conseguia fazê-lo melhor*. E eles foram o casal que foram por 36 anos porque souberam resolver juntos os problemas e acima disso, amaram-se como nunca**. Amou os filhos Miriam Teresa (Miryan Thereza) (que possivelmente muita gente conhece como dubladora) e José Carlos (Zezinho) como só um pai de verdade consegue. Tudo isso sendo contado de uma forma muito bonita, mas sem deixar de falar das imperfeições que o ser humano Oscarito tinha.

Mas ele também tinha um igual, sincero e profundo amor fraternal e paternal pelos amigos de palco e tela, sendo amigo, professor, mentor, mestre. De tudo e mais um pouco, segundo os muitos depoimentos de pessoas que com ele trabalharam e conviveram. Eva Todor, Renata Fronzi, Carlos Manga, Mary Daniel, Jô Soares, Dercy Gonçalves, só para citar alguns. Nesse ponto, o livro não faz feio, e inclusive, conseguimos imaginar como tudo aquilo acontecia. Em algumas partes, até se chora imaginando que pessoas como ele quase não existem mais.

Oscarito – o riso e o siso, afinal, não é uma simples biografia de um artista.
É o retrato sincero e detalhado até dizer chega de uma época e uma classe artística que parece ter sido e existido a mil anos. De pessoas que precisavam enfrentar todo o tipo de preconceito e dificuldades para viver do que amavam. Além de aguentar o constante ódio dos críticos de arte, que na sua maioria só querem status de cult e eram, e ainda são, uma gente bem arrogante. Exemplo: José Messias, o jurado MAIS ODIADO de todos os tempos. Se bem que eu poderia citar o Pedro de Lara, mas esse era mais personagem que propriamente crítico.

Seres humanos que faziam até três sessões teatrais por dia quando era necessário. E hoje muito dito artista reclama que não tem tempo de fazer nada quando está em turnê. Queria ver essa gente trabalhando DEZESSEIS horas por dia sete dias por semana lá nos anos quarenta e muitas vezes tendo que dormir pouco porque tinha que ensaiar no dia seguinte. Gente que não raras vezes era feita de idiotas por produtores e diretores, que obtinham a maior parte dos lucros das produções. Que se tornaram verdadeiros campeões* contra a adversidade que vida artística muitas vezes impõe a quem segue esse caminho, mesmo hoje. Coisa que o autor escreve de modo a imaginarmos cada situação descrita por suas palavras ou pelos depoimentos presentes no livro. Muitas vezes, apenas imaginamos as possibilidades porque nem tudo consegue ser perfeitamente esclarecido ou tem possibilidades demais para considerar somente uma.

Ou é isso que o autor quis me fazer pensar, não é mesmo, senhor Marinho? -risos- Por que na realidade conseguimos, se conhecemos bem o contexto daquela época, imaginar o porquê de muitas coisas descritas no livro terem ocorrido. Exemplo: quando Grande Otelo, o parceiro do nosso biografado em vários filmes, deixou de fazer dupla com ele após a produção Matar ou Correr, de 1956. Aparentemente, não é esclarecido o motivo desse desfazimento, mas a verdade é que o comediante em questão queria mais do que estava recebendo, em termos de fama, naquele momento, já que ele era “a escada” do Oscarito. O que não é anormal, já que chega uma hora em que pode ser preciso seguir outro caminho, pois aquele deixa de nos satisfazer.


O que não foi o caso do Oscarito a partir da década de sessenta, quando a comédia passou a assumir variados tons e o nosso amado maior cômico brasileiro se viu não apenas mais velho, mas deslocado. Afinal, era o advento da televisão, do Novo Cinema, a Ditatura Militar. E por aí vai. Até hoje.
Tons cômicos adultos, apimentados, políticos, o que em nada combinava com aquela figura adoravelmente pequena e bela (sim, gente, o homem, apesar de relativamente pequeno, provavelmente pouco mais de 1,60 m, era bonito de arrancar suspiros) que tão apenas queria divertir de forma descompromissada. Tanto que o capítulo final do livro e seu epílogo trazem certa tristeza ao coração dos leitores, quando vemos ele aposentado e “ultrapassado” por gente como Costinha, Ary Toeldo, Chico Anysio, Renato Aragão e outros tantos que vieram a partir daquela época.
“Ultrapassado”, mas jamais superado. Aliás, ultrapassado no ponto de vista de quem nunca teve olhos o suficiente para apreciar o cômico número um do Brasil. Porque o número de fãs, mesmo depois dele ter se ausentado, continuava o mesmo ou até maior. O que é comprovado, um tanto tristemente, pela imensa presença no funeral dele, em 1970.

E olhando a comédia atual, eu me pergunto: o que está acontecendo com o humor? O que deu tão errado para ser a desgraça atual onde tão poucos se salvam? Essa pergunta o autor não responde, mas acho que sabemos a resposta, mas não vou dizê-la porque o que eu realmente quero dizer é...
Esse livro merece ser apreciado em toda a sua plenitude. Merece um lugar de honra nas nossas estantes. E o Oscarito com certeza merece ser visto, revisto e apreciado pelos cinéfilos. Que como eu, apreciam o lado realmente bom da vida.



Playlist:

1 - Nancy Sinatra - You only live twice





2 - Louis Armstrong - We have all the time in the world





3 - Risos e Lágrimas - Clara Nunes





4 - Stronger Than You - Estelle





5 - Wonderwall - Oasis





6 - Nobody does it better - Carly Simon





7 - Céline Dion - Because you loved me





8 - Amor quando é amor - Clara Nunes





9 - Queen - We are the champions

15 comentários:

  1. Renata minha flor, que resenha mais linda <3
    Eu confesso que não sou muito de biografias, e que li pouquíssimas durante essa vida, mas gostei muito do que você escreveu sobre essa obra. Fiquei bastante interessada em conferir, mas não conhecendo tão a fundo o personagem.

    Abraços

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  2. Olá. Para ser sua primeira biografia acho que você não podia ter escolhido pessoa melhor porque nem todas fazem esse retrato sincero de uma época como essa.

    Por falar em época, acho que o Descrito representa toda uma geração e merece essa homenagem que pelo visto foi muito bem feita.

    Amei sua resenha cheia de sentimentos e verdades.

    Beijos

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  3. Oie...
    Não tenho muita experiência com biografias, até hoje li apenas uma, e para ser sincera, não curti muito. Mas, vendo sua resenha me animei bastante, pois, você falou com tanta convicção que é impossível não desejá-lo! Acredito que viajar pela década de 60 também irá me fazer bem ;)
    Dica anotada.

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  4. Eu me senti não apenas convidada, mas provocada a ler essa biografia. Nada sei sobre esse sujeito, ícone da comédia, mas já o considero pacas. Sua resenha me fez questionar, realmente, onde nosso humor se perdeu no esdrúxulo. Onde foram parar a inocência e as boas piadas, daquelas que sem vulgaridade nos fazem rir? Enfim, obrigada pela bela resenha. VOU LER, com certeza, essa obra um dia.

    Beijos!
    www.myqueenside.com.br

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  5. Oie!
    Não tenho o costume de ler biografias, mas me senti muito instigada a ler essa.
    Ainda não conhecia o Oscarito, aliás, não me lembro de sequer ter ouvido falar dele, mas ele parece ter sido muito importante para o humor.
    Assim como você, também me pergunto para onde o humor está indo e como é possível verem graça nessas piadas ridículas.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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  6. Gente, que resenha é essa?! Eu não costumo ler resenhas. Na verdade, até hoje só li uma que realmente me agradou e me conquistou. A segunda experiência não foi bem sucedida. Mesmo assim, cada comentário empolgado que você fez sobre a obra e sobre o humorista me deixaram muuuito empolgada para conhecer a história desse ser que parece tão incrível. Eu não conhecia ele, nunca havia ouvido falar, mas minha mãe disse que o nome não é estranho. De qualquer forma, também passo todos os dias me perguntando o que está acontecendo com o humor. Nós não temos mais gosto de assistir programar humorísticos na televisão. Raramente encontramos algo que pode ser assistido em família. Está tudo uma baixaria.
    Eu adorei sua resenha!

    Beijos,
    Fernanda Goulart
    Psiu, vem ler! | @psiuvemler

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  7. Oie
    eu raramente leio biografias, só se for algo que me interesse muito muito mesmo, e olhe lá ainda, não é um gênero que me agrada muito mas bem legal o livro pra quem curte, bela dica

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  8. Oi, Renata!

    Só li uma ou duas biografias na minha vida, nunca tive muito interesse nesse tipo de leitura. Mas sua resenha está tão bem elaborada e suas impressões me chamaram tanta atenção que me sinto na obrigação de conferir essa obra! Também adoro premissas com época, acho que a leitura vai ser boa hein! Parabéns pela resenha e muito obrigada pela dica, está anotadíssima!

    Sucesso com o blog sempre!
    Beijos, Belle.
    floraliteraria.blogspot.com

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  9. Oii Renata, tudo bom? Eu AMEI sua resenha!! Gosto muito de ler biografias e livros de memórias, e fiquei encantada com a história do Oscarito, que não conhecia!! Que bom que gostou tanto da leitura!! Já anotei sua dica :D
    Beijos!

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  10. Olá!!!
    Você fala com tanta amor desse livro e transmite isso tão bem em sua resenha que fiquei muito curiosa para ler essa biografia. Eu também me faço essa pergunta. O humor atualmente perdeu a graça literalmente. São raros os humoristas que realmente são engraçados e os que eram se perderam no meio do sucesso instantâneo. Infelizmente o sucesso sobe a cabeça de alguns e não se faz mais comediantes como antigamente.
    Adorei conhecer um pouco sobre esse livro, vai para lista de desejos.
    Beijos,
    Nay
    Traveling Between Pages

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  11. Olá!

    Eu confesso que nunca li uma biografia na vida, mas essa sua resenha linda me despertou uma enorme vontade de ler este livro é conhecer melhor quem foi o Oscarito. Eu, sinceramente, amo qualquer coisa que me faça rir, aprecio muito isso e se essa obra for realmente for engraçada como você diz, vai tomar uma lugar mt especial no meu coração. Obrigada pela dica.

    Ingrid Cristina
    Plataforma 9¾

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  12. Biografias são livros muito lindos de se ler. Eu gostaria de conseguir abrir mais espaço na minha lista de leituras para poder ler mais do gênero, mas sempre tem um romance que vence na hora de escolher a próxima leitura...rs
    Achei sua resenha bem interessante, me fez ficar curiosa com o livro e refletir sobre um monte de coisas, principalmente sobre o atual cenário da comédia, que virou a curva para o lado errado em algum lugar e parece que não tem mais salvação em alguns casos...
    Não é bem o livro para mim, mas aposto que minha mãe iria adorar ler. estava mesmo precisando de uma boa dica de presente :)
    Beijinhos,
    Lica
    Amores e Livros

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  13. Oi, tudo bem?
    Eu confesso que não costumo ler biografias, isso porque não tenho o hábito de ser fã de alguém, logo poucos livros desse gênero chamam a minha atenção. O Oscarito eu ainda não conhecia, acredita? Nunca sequer ouvi falar dele, mas pela sua resenha parece ter sido um comediante esplêndido. E por todos os seus elogios, eu confesso que fiquei curiosa para saber mais sobre esse homem que sabia fazer uma boa comédia. Enfim, adorei a dica de leitura de hoje e é uma pena a comédia atual estar tao ruim, né?

    Beijos :*

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  14. Olá!
    Não gosto muito de ler biografias e nunca tinha ouvido falar de Oscarito. Mas, gostei muito do que você falou sobre o que está acontecendo com o humor hoje em dia. Antigamente, ríamos por muito pouco, as piadas eram inocentes e podiam ser contadas tanto para crianças como para adultos. Hoje, os humoristas tem apelado para a baixaria e tem se tornado cada vez mais difícil não se envergonhar, ao estar toda a família na frente da tv, e ser bombardeado por uma piada constrangedora. A mídia precisa rever seus conceitos de humor.

    Abraços, Lara.
    Psiu, Vem Ler!

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  15. Apesar de não apreciar o humor atual, sempre gostei de biografias que tragam conteúdo sobre humoristas que fez e fizeram a diferença. Sou apreciadora de bons filmes como Tempos Modernos e sei que ele foi um espanhol abrasileirado ou o contrário? Sua resenha me deixou extasiada para conhecer as respostas para as perguntas feitas nos livros!
    Beijos,
    Amanda M.

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