09 setembro 2016

[Resenha] Menina Má - Por William March



Título: Menina Má
Autor (a): William March
Páginas: 272
Editora: DarkSide Books
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Sinope: Rhoda, a pequena malvada do título, é uma linda garotinha de 8 anos de idade. Mas quem vê a carinha de anjo, não suspeita do que ela é capaz. Seria ela a responsável pela morte de um coleguinha da escola? A indiferença da menina faz com que sua mãe, Christine, comece a investigar sobre crimes e psicopatas. Aos poucos, Christine consegue desvendar segredos terríveis sobre sua filha, e sobre o seu próprio passado também.
Publicado originalmente em 1954, MENINA MÁ se transformou quase imediatamente em um estrondoso sucesso. Polêmico, violento, assustador eram alguns adjetivos comuns para descrever o último e mais conhecido romance de William March. Os críticos britânicos consideraram o livro apavorantemente bom. Ernest Hemingway se declarou um fã. Em menos de um ano, MENINA MÁ ganharia uma montagem nos palcos da Broadway e, em 1956, uma adaptação ao cinema indicada a quatro prêmios Oscar, incluindo o de melhor atriz para a menina Patty McComarck, que interpretou Rhoda Penmark.
MENINA MÁ é um romance que influenciou não só a literatura como o cinema e a cultura pop. A crueldade escondida na inocência da pequena Rhoda Penmark serviria de inspiração para personagens clássicos do terror, como Damien, Chucky, Annabelle, Samara, de O Chamado, e o serial killer Dexter.


Rhoda Penmark é uma adorável garotinha de 8 anos. Cuidadosa, educada, organizada, aplicada em tudo que faz, e ainda possui uma linda covinha quando sorri. Todos os adultos a amam e sempre fazem questão de dizer a Christine a sorte que possuí em ter uma filha tão perfeita. Ao ponto que os mais velhos amam-na, o mesmo não pode ser dito das crianças, pois, Rhoda é uma excelente atriz.

"[...] parecia que o dia 7 de junho, dia do piquenique da Escola Primária Fern, fora o dia que sentiu felicidade pela última vez, pois, desde então, nunca mais soubera o que era alegria ou paz."
Página 21

Apesar de todos acharem a menina perfeita, Christine queria que sua filha fosse mais amorosa e parecida com as outras crianças, e após Rhoda perder numa competição de caligrafia para um colega, ela começa a demonstrar certa agressividade pois acha que merecia a medalha.

"[..] Decidiram que o menino Diagle, mesmo sem ter a letra clara e certinha de Rhoda, foi o que teve a maior melhora no ano letivo, e, afinal de contas, o prêmio é concedido ao aluno que mais melhorou."
Página 27

Numa certa manhã Rhoda vai ao piquenique anual da escola Fern, e Christine aproveita para passar um tempo com Mônica e seu irmão Emory, mas algo inesperado acontece. Christine escuta no rádio que uma criança morreu durante o piquenique deixando-a desesperada de preocupação com a filha. Logo descobre que não se tratava de Rhoda e sim de Claude Daigle, menino que havia ganhado a medalha em seu lugar, e misteriosamente o objeto havia sumido.

"Últimas notícias: uma criança que participava da excursão anual da Escola Primaria Fern sofreu um afogamento acidental no mar hoje á tarde. O nome da vítima só será divulgado quando os pais forem notificados. Em instantes, teremos maiores informações sobre essa tragédia."
Página 70

Christine fica preocupada em como sua filha estaria após o episodio visto que isso abala até mesmo uma adulto, mas assim que pega Rhoda ela percebe que em nada afetou a a menina, ela continua a mesma de sempre. A atitude fria da filha e indicios encontrados, deixam Christine desconfiada de que a filha tenha algo a ver com a morte do menino. Aos poucos Rhoda demonstra-se mais fria e calculista, e para desvendar o mistério Christine começa a buscar as razões por sua filha ser assim em crimes de psicopatas do passado, ela só não esperava encontra mais de seu passado.




Sempre fui completamente apaixonada por clássicos, mas até então nunca tinha me aventurado em livros. Menina Má em tudo me atraiu, desde a capa a estória. Inicialmente o livro foi publicado no ano de 1954 onde a partir dessa obra outros clássicos foram inspirados. William trouxe questões e críticas morias para época, e ao decorrer da narrativa vamos percebendo que mesmo sendo publicado a mais de 60 anos, algumas coisas são bem atuais.


O livro é narrado em terceira pessoa pelo ponto de vista de Christine e alguns capítulos por outros personagens, mas a maioria são pelo ponto de vista da senhora que mostra através de seus olhos as atitudes infundadas de sua filha. Rhoda é uma menina de 8 anos que não possuí sentimentos. Tudo que ela faz é calculado e manipulado ao seu bem prazer. Fiquei bem chocada com a forma com que ela foi construída, suas características são sólidas e bem vivas, fica nítido ao leitor que a personagem não sente remorso ou arrependimento por nenhuma das suas atitudes. Chega a ser assustador o quão calculado são suas ações, ela sorri, dá afeto, elogia, tudo na hora certa.

"Sempre houve algo estranho com Rhoda, mas eles ignoraram suas esquisitices, esperando que, com o tempo, ela fosse mais parecida com as outras crianças. [...]"
Página 58


Apesar de Rhoda ser o foco principal da estória, Christine foi uma personagem que me chamou muita atenção. Como uma mãe deve agir nessa situação? E se de repente você desconfiasse que sua filha matou uma pessoa, você deixaria de ama-la? Foi intrigante ver Christine buscar respostas pelas atitudes da menina, tendo um crescimento muito grande ao decorrer da estória, onde passa de uma simples dona de casa para uma pessoa que analisa os mínimos detalhes de tudo que acontece. Ela fica relutante e com medo daquilo que irá descobrir, e até mesmo o que deve fazer em tal situação se suas desconfianças forem reais. Fiquei bem chocada com a atitude dela no final, denotou muita coragem e foi imprevisível.

"O que você me dá se eu der a você uma cesta de beijinhos?"
Página 135


Além de Christine temos outros personagens como Leroy, faxineiro do prédio. Ele se compara com Rhoda, e é com toda certeza a pessoa que conhece a menina sem a máscara da perfeição. É bizarro a obsessão que desenvolve em desarmar a menina e fazê-la sentir medo, mas ao contrario de Rhoda, Leroy não tem coragem de machucar nem uma mosca.


Mônica foi uma grande surpresa pra mim, não imaginei que iria gostar tanto da personagem. Ela é uma senhora amiga de Christine que é bem a frente do seu tempo. Quando digo isso é porque os pensamentos da senhora são bem atuais e reprováveis no de 1954. Mônica é divorciada, feminista e autossuficiente, todos a sua volta a admiram por ser tão forte e destemida.


Como disse anteriormente, o livro é recheado de críticas a sociedade, e foi Mônica quem trouxe a maior parte delas sendo que o foco principal é desvalorização da mulher ante a sociedade. Nessa época uma mulher que trabalhava era considera inferior, ou o fato de que mulheres são burras em comparação aos homens, sendo sua única função ser bonita para conseguir um bom casamento. Mônica quebra esses paradigmas e ainda mostra que é inteligente e muito mais competente que muito homem da época. As coisas hoje são diferentes, mas William trouxe em pauta numa época em que as mulheres começavam a ter voz, chega a ser louvável sua atitude.


Além de trazer questões sociais, a abordagem sobre psicopatia infantil que o autor teve foi extremamente inteligente. Rhoda não é psicopata e ponto final, ele trouxe toda uma análise de comportamentos e até mesmo sobre genética, onde a abordagem principal diz que é algo que nasce com a criança. Achei muito interessante os casos de assassinatos que Christine pesquisou mostrando nuances desses comportamentos onde os maiores assassinos em séries que já existiu tinham indícios dessa personalidade desde criança e foram amadurecendo com o tempo. Mesmo sendo um livro de ficção esses fatores deixaram a estória interessante e crível.


Em todo momento que li o livro ficou muito difícil não lembrar do documentário "A Ira de um Anjo". Ao contrário de Rhoda, Beth foi abusada quando ainda era bem jovem e dada a adoção mais tarde. A menina desenvolveu uma conduta que trouxe preocupação aos pais adotivos sendo que ela dizia que iria matá-los enquanto dormia. Hoje ela foi tratada e trabalha para ajudar crianças que tiveram o mesmo destino que ela.
(Documentário aqui)

Dr. Ken: "As pessoas tem medo de você Beth?" 
Beth: "Sim."
Dr. Ken: "Seus pais tem medo de você?"
Beth: "Sim."
Dr. Ken: "O que você faria com eles?"
Beth: "Esfaquearia." 
Dr. Ken: "O que você faria com seu irmão?"
Beth: "O mataria."
Dr. Ken: "Em quem você gostaria de enfiar alfinetes?"
Beth: "Na mamãe e no papai."
Dr. Ken: "O que você gostaria que acontecesse com eles?"
Beth: "Que eles morressem."

Cenas A Ira de um Anjo

Não podia deixar de falar sobre a edição física do livro. A editora está de parabéns pelo produto final sendo que o livro trás capa dura, folhas com uma gramatura mais elevada e algumas ilustrações deixando ainda mais atrativa. A capa remete a um livro mais infantil e engana quem olha despercebido, mas tem tudo a ver com a inocência que Rhoda passa as pessoas.

"[...] Além disso, quem é normal tende a visualizar o assassino em série como alguém tão monstruoso por fora como o é por dentro o que não podia estar mais longe da verdade."
Página 198

O livro entrou para os favoritos da vida. A escrita do William é tão madura e envolvente que fiquei presa em meio as páginas querendo saber quais seriam as atitudes dos personagens, e morta de medo que Rhoda resolvesse aprontar mais alguma coisa. Tem uma grande reviravolta nas últimas páginas que foi muito inteligente e sagaz, em nenhum momento imaginei esse rumo para a estória. Menina Má é um livro espetacular cheio de críticas sociais e que trás o questionamento sobre como a maldade nasce nas pessoas. Ninguém desconfia de uma criança sobre um crime, não passa pela mente humana tal atrocidade,  fato tal que a cultura geral as apresenta como anjos inocentes. Aqui William veio dizer que nem sempre as crianças são doces como aparentam.

10 comentários:

  1. Olá! Tudo bem?
    Se tem algo que me assusta, são crianças em filmes de terror e em filmes de psicopatas... imagina em livros então?
    Bonecas tbm não ajudam em nada, assim que eu pude, doei todas as minhas kkkkk Essa capa aí me assustou.
    Já tinha lido sobre algo parecido, principalmente com esse trecho de uma entrevista que você colocou, acho que é o da menina que foi abusada pelo pai depois que a mãe morreu e que foi adotada depois por uma família junto com o irmão, não é? É bem assustadora, era como se ela não medisse a gravidade de suas ações, mas a menina passou por tratamento e ficou bem.
    Não o leria agora, tenho que criar coragem rsrs
    Mas a história parece ser interessante.
    Beijinhos!

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  2. Olá Stéfani,
    Estou muito curiosa para ler esse livro. Adoro a premissa dele e acho que a crítica é muito presente. Estou me perguntando como a protagonista age em determinados momentos e como a mãe da menina lida com isso. É uma situação bastante complicada ter uma filha assim, sei lá.
    A edição está muito linda e fiquei, ainda mais, curiosa para ler a obra.
    Adorei a resenha e as fotos.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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  3. Oi, flor!
    Eu não podia ter lido sua resenha, nãooooo podia. Haha. Eu estava evitando colocar mais livros entre os meus desejados, mas sou psicóloga e adoro o tema desenvolvimento moral. Nada sabia sobre Menina Má, gostei bastante do enredo. Saber que se trata de psicopatia infantil me deixou encantada, especialmente depois dos seus elogios à narrativa. Vou ler, com certeza.

    Beijos!
    www.myqueenside.com.br

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  4. Olá
    Primeiramente, porque a capa tinha que ser um gif? Eu já cheguei com medo na resenha rsrs. Já vi várias resenhas para o livro, sempre diverge entre boas e ruins,acho que preciso ler para tirar minhas próprias conclusões! Essa capa é realmente um arraso e pura luxúria. Até mais vê
    Bjs

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  5. Não é exatamente o tipo de livro que eu leio, mas fiquei bem interessada neste aqui. Abordar a psicopatia em uma criança, um ser que por premissa, deveria ser inocente, é bem interessante. Quero muito ler!!!
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

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  6. Oiee ^^
    A capa deste livro é tão bonita, mas tão macabra...haha' Eu não gosto muito de livros assim, com personagens frios e calculistas, apesar de achar interessante. O que leva uma pessoa a tornar-se algo assim? Parece ser um livro interessante, mas bem assustador também.
    MilkMilks ♥
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

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  7. Oi Stéfani,
    O livro não me chamou muita a atenção logo que saiu, mas sua resenha e outra que li há algum tempo atras me despertaram para ele.
    Principalmente pelo fato de ser muito mais do que um livro sobre uma criança má, mas também mostra como isso afeta sua mãe, em talvez ela imaginar onde erro e coisa e tal.
    Assisti o documentário que você citou um dia desses e acho que vou revê-lo apos ler esse livro.

    Bjs,
    Garotas de Papel

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  8. Olá!
    Eu tenho quase certeza que já assisti o filme em preto e branco, mas como não lembro muita coisa, pretendo ler o livro também!
    Acho a premissa bem diferente e ela também me lembra o documentário "A Ira de um Anjo".
    Já tô com um certo medinho de Rhoda hahaha. Adorei saber que a escrita do autor é madura e envolvente, e que o livro é recheado de críticas a sociedade.
    Sem dúvidas é um livro que quero conferir.
    Adorei a resenha!
    Beijos!

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  9. Oi!
    Eu estou louca para ler esse livro. Adoro histórias que tratam desses temas, tanto que já comprei o meu. Só falta tempo para ler, rsrs.
    Lendo a sua resenha me lembrei demais do livro "Precisamos Falar Sobre o Kevin", que tem como base o mesmo tema e o personagem parece ser muito parecido. Agora fiquei mais curiosa ainda para ler.
    Não conhecia o documentário, mas vou dar uma procurada para assistir.
    Ps.: Só pelo que você falou, adorei a personagem da Mônica, principalmente para o seu tempo.
    Bjss

    http://umolhardeestrangeiro.blogspot.com.br/

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  10. Olá =) O livro parece ser bem produzindo, cada detalhe. Deve ser um choque descobrir que sua filha de 8 anos está longe de ser um anjinho. A história é bem diferente do que eu estou acostumada a ler. O livro parece ser bem interessante. Eu tinha lindo uma resenha desse livro e tinha recebido nota bem baixa, agora sua nota foi bem alta. Me despertou curiosidade. Beijos'

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