21 setembro 2016

[Resenha] A dama das amêndoas - Por Marina Fiorato



Título: A dama das amêndoas
Autor (a): Marina Fiorato
Páginas: 309
Editora: Prumo
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Sinopse: Na antiga Itália do século XVI, a jovem Simonetta perde o marido Lorenzo - poderoso senhor feudal - em consequência de uma batalha travada contra os espanhóis. Certo dia, o jovem pintor Bernardino Luini, aprendiz do gênio Da Vinci, a avista por acaso nos bancos da Igreja de Santa Maria dei Miracoli, na Toscana. Ele estava ali para pintar um afresco nas paredes da igreja por encomenda do cardeal de Milão. Ela, muito bonita e recém viúva, rezava pela alma do amado.
Era uma época de grandes transformações, a prática comercial dos judeus incomodava a Igreja Católica. Foi nesse cenário que grandes guerras se desenrolaram e muitas damas ficaram viúvas precocemente, como Simonetta: de um casamento que unira duas poderosas famílias, restava a essa pobre dama apenas dívidas. Como reconstruir a vida em meio a batalhas que dizimavam e destruíam tudo? 


Como você reconstrói sua vida quando você, sendo uma mulher, no caso, uma moça que mal acabou de fazer dezessete anos no século XVI, fica viúva? E muito pior, o marido morreu em combate contra os espanhóis e o corpo não foi encontrado. Como você lida com o fato de que seu amado, ao morrer, deixou um amontoado de dívidas que pode te fazer perder até a casa onde mora? Você seria capaz de aceitar posar para um pintor cuja fama definitivamente não é das mais santas embora pinte santos e outras figuras religiosas, porque precisa muito de dinheiro? E o que você faz quando descobre que ninguém que você conhece (ou achava que conhecia) está disposto a te ajudar e a única pessoa que pode fazê-lo é um comerciante judeu?

Todo esse questionamento são respondidos e resumem toda a construção de A dama das amêndoas, um romance da britânica Marina Fiorato, de 2009, também o primeiro que li dessa autora. Espero que o primeiro de muitos, porque definitivamente gostei muito do modo como ela desenvolve a escrita e a progressão de trama.

Vamos começar pela edição física do livro. A capa é muito bonita, com um design que remonta ao século XVI. A fonte é boa e muito agradável de ler. A única coisa, no entanto, que senti falta, foram das abas onde geralmente eles colocam a trama, pela frente e dados da autora, na contracapa. Isso, porém, não compromete a apreciação.


O li há um bom tempo já, mas até aqui, não sabia como falar dele sem soltar mil e um spoilers. E claro, ele me fez pensar muito e chorar em igual proporção. Porque asseguro a vocês que acontece muita coisa no decorrer dele. E mesmo o menor dos detalhes pode fazer muita diferença.

Entretanto, o que tenho de destacar aqui, além da sinopse, são seu excelente desenvolvimento, dois casais que aparecem alternadamente e o progresso a olhos vistos da protagonista, Simonetta, como personagem. E igualmente do Bernardino Luini, que com o decorrer da trama, descobre muito de si mesmo e das escolhas que precisa fazer se quer encontrar sua própria felicidade. Pensem nas perguntas que fiz lá no começo do texto e apenas imaginem o que ela teve de fazer para contornar a situação na qual se encontrou inesperadamente. Sim, ela aceita posar para o pintor, discípulo do célebre Leonardo da Vinci, em razão de que o pagamento pode ajudar a amenizar a situação. No entanto, apenas isso não vai resolver a situação toda.

E para isso, Simonetta Di Saronno, se vendo sem qualquer saída quando não consegue ninguém para fornecer-lhe um empréstimo, acaba apelando à riqueza do judeu Zaqueu Abravanel, conhecido como Manadorata, em razão de ter uma prótese dourada no lugar da mão que perdeu em razão da intolerância cristã.

É simplesmente incrível como ela levanta a cabeça e começa a fazer coisas que nenhuma “moça de boa família e reputação” faria naquele tempo. Ela usa cabelo curto, roupa de caça, sai para caçar comida, usa arco e flecha, cuida da casa como um verdadeiro capataz e muito mais, coisa que naquela época, mulher não fazia “nem a pau, Juvenal”. Ou seja, ela se obriga a colocar as convenções sociais e de gênero de lado se não quiser perder tudo e morrer de fome.

Mais incrível ainda, e também triste até não poder mais, é o modo como a autora coloca e desenvolve a discriminação religiosa contra os judeus, naquela época, chamados de “assassinos de Cristo”. As partes que tratam disso, especialmente quando a Simonetta tem de abrir mão do orgulho para conseguir o empréstimo, nos fazem imaginar fortemente como devia ser naquele tempo. Só imaginem como era ser judeu em uma época onde predominava o cristianismo católico e inclusive era crime seguir outra religião.

La signora Di Saronno, afinal, acaba fazendo bem mais que isso: trava uma grande amizade com ele e as partes que desenvolvem a relação fraternal deles são muito bonitas e nos ensinam muito sobre “não julgar um livro pela capa”.

"- Como é estranho que o contato com os de outra fé me haja levado para mais perto de Deus, não mais longe. Aprendi, por fim que Deus é Deus; o mesmo para todos nós, apenas nosso culto difere."

E eu não poderia deixar de destacar a linda relação familiar do Manadorata com a Rebeca, esposa dele, e os filhos, Elijah e Jovaphet (Evangelista e Giovanni). É aqui que eu paro porque o que acontece mais para frente do livro é spoiler e claro, me fez chorar muito. E odiar mortalmente os muitos ditos “cristãos” daquela época, possivelmente os piores e mais vis vilões desse livro. E da História da humanidade. História essa que é incrivelmente bem intercalada com a ficção criada por Marina Fiorato, que usa até mesmo um personagem real para montar e desenvolver o enredo onde amor, amizade, preconceito, arte e religião se misturam para formar um belo banquete literário.

Bernardino Luini, por sua vez, que começou o livro como um mulherengo de marca maior sem qualquer fé, acaba evoluindo de uma forma fantástica e ao ter que se afastar de quem ele acaba se apaixonando, por motivos diversos, acaba descobrindo, justamente no lugar que ele mais rejeita, por razões igualmente complicadas, as respostas que ele procurou desde sempre. E preciosos amigos nas figuras de um padre e uma freira, irmãos de sangue. Como se diz: Deus escreve certo por linhas tortas.

Como já mencionei, há outro casal no livro, Amaria e Selvaggio, que são igualmente bem desenvolvidos, inclusive o progresso do rapaz é muito bem mostrado, já que o começo dele não é dos mais bonitos, pois ele foi encontrado quase morto pela Amaria e sua Nonna, uma vovó para ninguém botar defeito. Apesar de não ter a ver totalmente com o enredo principal, liga-se a ele de um modo no mínimo surpreendente. Inclusive o desfecho dessa parte foi uma sacada bem criativa da autora, se considerarmos o contexto e a época e o que poderia acontecer caso alguém descobrisse a verdade sobre isso. Duvido que isso fosse ser tão simples.

O saldo final sobre o livro é absolutamente positivo. E eu altamente recomendo para quem gosta de uma excelente mistura literária cheia de personagens memoráveis.

24 comentários:

  1. Olá
    Eu não conhecia esse livro, mas já fiquei fascinada pela premissa, especialmente por ser um romance de época. E a capa também me encantou bastante. Adorei poder conferir sua resenha, e claro que me deixou ainda mais motivada para procurar mais a respeito dessa obra.
    Beijos, Fer
    www.segredosemlivros.com

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  2. Olá, tudo bom?
    Bem, não conhecia esse livro mas, sua resenha me cativou te tal modo que fiquei louca para lê-lo. Que vida difícil que essa mocinha vai levar logo aos 16 anos! Gostei de saber que ela faz uma opção por ignorar as convenções sociais para não perder tudo e não morrer de fome. Outro ponto que chamou muito minha atenção foi essa abordagem da intolerância religiosa aos judeus no século XVI! Esse não é um tema muito abordado em livros de romance, então, só aguçou ainda mais minha curiosidade. Sugestão mais que anotada!



    Beijos!
    @PollyanaCampos
    Entre Livros e Personagens

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  3. Oi Renata,

    Não conhecia esse livro e achei o enredo muito interessante. De cara o que me chama atenção é o contexto histórico e os conflitos dessa época, acredito que o livro deve trazer isso bem incrustado para o desenvolvimento do enredo.
    Só o fato de você dizer que não pode falar muito para não dá spoiler, já me deixa mais intrigada para realizar essa leitura.

    Bjs,
    Garotas de Papel

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  4. Olá!!
    Não conhecia o livro nem a autora,e fiquei bem curiosa com a sinopse e o desenrolar dessa estória.Achei bem fofa essa capa,bem condizente com a premissa do livro, e confesso que já quero saber como vai ficar esse relacionamento da Simonetta com o pintor! Adoro livro de época e esse com certeza já está na minha listinha ^^

    http://livroaoavesso.blogspot.com.br/2016/09/resenha-pecados-no-inverno-lisa-kleypas.html

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  5. Eu ainda não conhecia o livro e quando vi a capa eu não gostei e achei que também não fosse gostar da história, mas me enganei. Me vi completamente interessada na leitura, achei a premissa muito diferente dos que tenho lido e acho que posso gostar muito quando eu for ler. Gostei de ver seus comentários sobre a obra.

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  6. Oi Renata,

    Eu amo romances históricos e fiquei muito curiosa com a premissa deste livro. Fiquei imaginando a delicadeza da autora a escrever e colocar elementos pesados como a discriminação dos judeus, uma jovem viúva de coração partido por ter perdido seu amado, entre outras questões. Fiquei realmente curiosa e instigada a conferir essa obra, já que você rasgou elogios para a autora.

    Parabéns pela resenha, anotei a dica.

    bjs =) ♥

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  7. Oi, não conhecia o livro e nem a autora, mas sua resenha me fez querer fazer isso. Você conseguiu expressar tudo o que contem no livro, desde os problemas da época que serão enfrentados pela mocinha até as questões religiosas, que, naquela época, eram bastantes ditadoras. Sua resenha ficou muito boa. Parabéns. Eu até leria o livro, mas se não tivesse lido sua resenha, dificilmente levaria ele para casa, afinal não é um gênero que costumo ler sempre.

    http://porredelivros.blogspot.com

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  8. Olá!! :)

    Eu confesso que não conhecia este livro mas deixaste-me deveras curioso! :) Bem, eu quero ler! Adorei toda essa evolução das personagens! :)

    Ainda bem que gostaste de ler o livro e que esse balanço foi assim tao bom, ate porque adoro quando as personagens nos marcam assim! :)

    Boas leituras!! ;)
    no-conforto-dos-livros.webnode.com

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  9. Nossa, nunca tinha ouvido falar desse livro... Pena que não tem orelhas, eu sinto falta delas... Rs... De qualquer maneira, como a Prumo nem existe mais, me resta torcer para que a Rocco faça uma edição mais caprichada, porque o enredo me interessou. Essa mocinha que desafia tudo o que era considerado certo pela sociedade da época para sobreviver deve ser interessante demais de acompanhar. E nem me fale sobre esses "cristãos" mega intolerantes... Me dá arrepios só de pensar neles.

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  10. Olá,
    Desconhecia a obra e fiquei bastante curiosa para saber como a personagem tão nova irá lidar com a morte do marido em combate e com todas as dividas que ele deixou para trás.
    Fico muito feliz em saber que há uma progressão da trama interessante e que a escrita da autora é cativante. Agora quero muito conhecer.
    A capa é muito bonita e também sinto falta da orelha do livro com todas essas informações.

    http://leitoradescontrolada.blogspot.com.br/

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  11. Olá!
    Eu não conhecia esse livro, mas achei a história muito interessante. Perder o marido aos 16 anos é muito azar coitada. Quero saber como ela conseguiu sobreviver as todas as lutas que a vida traz, principalmente na época que ela vive.
    Adorei a sua resenha.
    Beijinhos!

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  12. Oie. Não conhecia a autora e nem muito menos a obra, mas achei a capa lindissima e a edicao de época mais linda ainda. Sobre a sinopse eu gostei assim.como todos os questionamentos que você apresentou. Pena que não faz muito meu estilo de leitura. Bjus

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  13. Oi!
    Eu não conhecia o livro, mas pela sua resenha eu não me interessei.
    Não curto muito o gênero - romance de época - e tenho um problema que não consigo achar normal alguém ter que casar aos 16 anos, mesmo sabendo que era a época e tudo o mais...
    A capa é bonita, realmente remonta ao século XVI. Que bom que curtiu a leitura! Mas dessa vez eu passo a dica.
    Bjss

    http://umolhardeestrangeiro.blogspot.com.br/

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  14. Oie!
    Não sou muito adepta a esse gênero mas esse livro parece ser diferente dos outros, a história de Simonetta parece ser muito atraente, nunca li nada da autora mas aparenta ser uma boa escrita. A capa é muito bonita também.
    Beijos,Lari.
    Segredosdeumacerejeira.blogspot.com

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  15. Oi Renata, tudo bem?
    Nunca li nenhum livro desse gênero, mas ele me parece muito interessante por a protagonista ser viúva aos 17 anos e o falecido marido tê-la deixado endividada, a ponto de ser obrigada a quebrar os padrões que as mulheres agiam para não ter que passar fome. Também fiquei bem intrigada sobre o homem que perdeu a mão por causa da intolerância religiosa, e imagino que por esse motivo haja inúmeros conflitos por causa disso. Parece ser um livro muito legal!

    Beijos! ♥

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  16. Oi Renata, tudo bem? Sua resenha como sempre está super bem escrita e elaborada e achei interessante a autora construir uma personagem forte e que luta para sobreviver em uma época em que as mulheres eram frágeis e menosprezadas. Eu só não vou ler o livro pois romance de época não faz muito meu gênero mas com certeza vou indicar para algumas amigas que gostam
    Bj

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  17. Olá renata, não conhecia o livro, mas achei a capa maravilhosa, realmente remete muito a livros antigos que é uma coisa que eu adoro, agora sobre a trama em si não me chamou muita atenção, não gosto muito de romances históricos então não me aventuro muito e pela sínopse, achei a história em si um pouco confusa, mas deve ter sido impressão minha, porém achei maravilhoso o fato da protagonista quebrar tantos padrões que existiam na época

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  18. Olá! Só de ler o título já achei ele super bonitinho e diferente, pelo que você falou, é realmente isso, adoro quando vem essas oportunidades de conhecer livros diferentes de tudo que temos por aí, obrigada pela dica!
    Beijos, Luana

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  19. Oii,
    Se eu visse esse livro em algum lugar e olhasse a capa e o nome ia pensar "QUE CLÁSSICO CHATO", antes mesmo de ler a sinopse. Observa pra você ver o problema da pessoa. Sobre o livro... ADOREI!!! Quero muito ler pra poder saber se a Simonetta posa ou não para o tal pintor :D

    Abraços!
    http://lendocomobiel.blogspot.com.br/

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  20. Olá Renata,
    Adorei a premissa do livro. A ideia do livro é bem diferente de tudo o que já li e ouvi falar. Não sei o que faria na situação da protagonista, mas acho que é uma boa forma de vermos que as pessoas que dizem gostar de nós não estarão ao nosso lado quando precisarmos. Um ponto que me agradou foi saber dessa questão familiar que é apresentada na obra.
    Dica anotada.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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  21. Olá amore,
    Não curto muito livros de época...não conhecia a autora nem o livro até então...
    Embora sua resenha esteja uma delícia, o livro não é algo que me atraiu não... não leria nesse momento.
    Que bom tenha sido um livro com saldo positivo...
    Beijokas!!!
    www.facesdeumacapa.com.br

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  22. Olá!! :)

    Nossa, quanto detalhe para uma só história. Achei bem rica essa trama e me encanta saber que a protagonista teve a coragem de passar por isso dos protocolos sociais em uma época tão difícil. Fiquei com pena dela por ter que passar por tal situação ainda tão jovem, coitada.
    E preciso dizer que achei bom demais o livro trazer essa questão de intolerância religiosa sofrida pelos judeus. Está aí um livro que terei prazer em ler, então muito obrigada pela dica.

    Ingrid Cristina
    Plataforma 9¾

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  23. Olá,

    Já no primeiro parágrafo da resenha, o livro já me atraiu. Pois, além de curtir livro de épocas, os problemas que a personagem terá que enfrentar são bem complicados, sendo assim renderá boas histórias. Conforme fui lendo sua resenha me peguei pensando como não conhecia esse livro antes? Espero fazer a leitura em breve e espero gostar tanto quanto você.

    Beijos,
    entreoculoselivros.blogspot.com

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  24. oie tudo bem?
    Eu não conhecia o livro saber que ele traz uma historia dupla me deixou bem curiosa ainda mais sabendo que abas as historias foram bem desenvolvidas eu gosto quando livros tem essa pegada de superação e queria muito saber como Simonetta vai se virar para sobreviver. Enfim adorei a resenha e a dica esta anotada.
    Bju
    Mary Reis

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